Faça um teste rápido. Digite lá no Google: Nervos da Face.
Esse seria o termo que qualquer leigo (nunca no sentido pejorativo) pesquisaria para entender a inervação do próprio rosto, concorda? Nenhuma pessoa “normal”, que não seja da área da saúde, vai abrir o buscador e digitar “Ramos do VII par craniano”.
Daí, você clica na aba de imagens. Sua tela é inundada por referências “anatômicas” lindas, ultra detalhadas, cheias de texturas e luzes. Há uma chance gigantesca de você encontrar artes visualmente deslumbrantes, mas com um pequeno detalhe: elas estão absolutamente erradas.
Veja só o que apareceu na minha pesquisa:
ou então essa aqui:
ou essa:
Muitas coisas em comum nessas imagens:
São visualmente “agradáveis”, técnicas sem gerar repulsa
Todas, sem dúvidas, geradas por inteligência artificial
Todas, absolutamente erradas, bizarramente incorretas do ponto de vista biológico.
Ilustrações Sabor Ciência
Poderia ficar um tempão discutindo sobre a gororoba digital (ou “AI slop” como gostam os mais técnicos) que anda aparecendo nestes tempos de “inteligência artificial”, poderia colocar muitas das citações do Miguel Nicolelis falando disso, mas vou me restringir a um só fato dentro do contexto deste artigo:
Qualquer inteligencia artificial trabalha com estatística. Uma estatística muito muito elaborada, é verdade, mas o que ela gera no final é uma probabilidade. Quando você faz um prompt que pede uma informação qualquer, ela vai alinhar as palavras do texto-resposta de acordo com os parametros estatísticos que sua pergunta gerou naquele momento. Ela não compreende o lexico, ela alinha as palavras uma depois da outra numa probabilidade que faz sentido para quem lê. Já vi as inteligências artificiais sendo chamadas de papagaios estocásticos (ou probabilísticos)
Na geração de imagem, é muito parecido. Ao pedir “nervos da face” pra ela, os geradores de imagem vão buscar suas milhares ou milhões de referências anatomicas com que foram treinadas, e vai cuspir algo parecido com uma imagem de nervos da face.
Sabor nervos da face.
Temos que entender que as imagens geradas por Inteligência artificial nada mais são do que “pixels cuspidos” de forma aleatória que priorizam padrões estéticos e não a exatidão médica. Ela aprendeu a textura da ciência, mas não a lógica da ciência.
Tem problema? Depende…
Tecnicamente, estas publicações pseudo-científicas seriam “perdoáveis” se aparecessem nas postagens do Instagram da sua tia-avó que mora nos grotões do Tocantins e até hoje trata impinge com um circulo feito de caneta azul ao redor “pra não espalhar”.
Ou se usar pra montar um meme brega pra enviar pra alguém, não tem problema também. Já fiz isso muitas vezes nas thumbnails dos artigos deste mesmo blog.
Mas pra algo técnico-científico, isso é imprestável porque falta …
O Filtro
Estas imagens dos nervos que selecionei para o artigo, por exemplo, foram usadas em postagens do Instagram por uma cirurgiã bucomaxilofacial, outra foi de uma empresa de radiologia odontológica (que roubou a imagem de um perfil só de inteligencia artificial cheio de “curiosidades científicas”) e a outra por (pasmem) um Laboratório de anatomia em cadaver fresco que tem unidades no Brasil inteiro…
Percebem o tamanho do rombo? Porque furo não né.
Os mais desencanados vão comentar: ahh, mas isso não é conteudo técnico, é conteudo de marketing, não tem problema!
Tem problema: a empresa deve publicar conteúdo condizente com sua área de atuação. Se atua em cirurgia, saúde, etc, as informações devem ser corretas, verificadas. A empresa contrata um marketing terceirizado e o marketing faz qualquer coisa que der na telha porque o importante é o “conteudo estar sempre sendo publicado”.
Assim, essas imagens já não têm mais função informativa; elas assumiram uma função estritamente de marketing. Elas não foram feitas para ensinar onde fica o ramo mandibular marginal do nervo facial. Elas foram feitas para prender o olho de quem está rolando o feed.
Para o leigo, a armadilha funciona: a imagem tem cara de ciência, textura de ciência, iluminação de ciência. Logo, o cérebro assume que é ciência e dá autoridade para quem publicou.
Pra mim, isso incomoda. Desinforma, e rompe a pequena fragil linha de confiança que existe entre o leigo e a ciência real. Nos tempos que estamos, cercados de terraplanistas, antivax e aproveitadores, vale preservar essa linha, concorda?
Na ciência, na pesquisa baseada em evidência, existe um termo muito bom para se referir a artigos com base técnica ruim: “Garbage in, Garbage out”
Se entra lixo, só sai lixo.
Já passamos por uma “lavagem algorítmica”: conteúdo gerado em massa, com o mínimo de esforço humano, empurrado goela abaixo dos usuários nos feeds e nos resultados de busca. Isso quer dizer que daqui um tempo, há o risco da própria inteligência artifical ser treinada usando uma imagem errada e vai passar a elaborar outras ainda mais erradas. Dai nao falaremos mais de anatomia humana, viraremos pós-humanos.
Por isso que acho que o filtro é importante. Acessei um site de implantodontia uns tempos atrás. Lindíssimo, com artigos que pareciam escritos por humanos, mas com imagens 3D geradas exclusivamente por inteligência artificial. Ficou sem correlação com a realidade. Dava uma dissonância na hora de entender as coisas…
Arte é Ciência. E Ciência é arte.
Numa das minhas vidas passadas eu já fui desenhista, fazia quadrinhos. E até hoje dou um peso grande para a estética (no sentido filosófico mesmo, de entender a natureza do belo, do gosto) e por isso acabo trabalhando muito com arte nas minhas aulas. Nunca, ou raramente, uso aqueles slides prontos, normalmente meus slides começam branco e vão sendo criados do zero.
Hoje uso muito IA pra acelerar meu trabalho, mas com um grande filtro. Não dispenso, para a imagética dos slides, o que temos disponíveis nos artigos científicos. Então replico muito imagens de artigos.
Para entender como a estética e a ciência devem caminhar juntas, basta olhar para a verdadeira ilustração médica. Pegue, por exemplo, o trabalho de Levent Efe, um dos grandes nomes mundiais da ilustração científica.
Se você observar as artes do Dr. Efe, vai encontrar imagens tão ou até mais impressionantes que as geradas por IA. Mas com uma diferença brutal: elas têm alma, propósito e embasamento.
As ilustrações dele são deslumbrantes, mas, acima de tudo, são didáticas.
Cada milímetro da tela, cada sombra, cada ramificação de um vaso ou nervo tem o objetivo claro de ensinar uma verdade anatômica. Elas possuem uma precisão absurda, do ponto de vista técnico e científico, são irretocáveis. É a união perfeita do olhar artístico com a bagagem imensa de quem domina a literatura médica.
Sem contar a elegância. Isso não consigo nem explicar, mas as ilustrações são elegantes. Sem sobejo. O que precisa está lá, nada mais, nada menos.
Vou cair no senso comum, mas…
A leitura e interpretação de artigos científicos não é simples. É uma tarefa densa, que exige tempo, dedicação e construção de repertório. Decifrar a literatura médica, entender as variações anatômicas reais e validar uma informação dá muito mais trabalho do que digitar um prompt genérico num gerador de imagens.
Mas esse esforço é inegociável. É a leitura de artigos profundos que constrói o senso crítico necessário para olhar para um delírio artificial e dizer: “Não, o nervo facial não faz esse trajeto”. As Inteligências Artificiais são ferramentas fantástica e revolucionárias que, nas mãos certas, tem um potencial gigantesco.
Mas ela é só um pincel.
Ela não substitui o senso critico, muito pelo contrário, pode atropela-lo sem remorsos. E quanto tempo um profissional tomaria de seu dia pra validar tecnicamente o que a empresa de marketing trouxe? O que o prompt gerou?
Percebe que não estou falando “não use”, mas sim “veja o que foi produzido”. A preguiça não pode substituir o rigor científico. E também não precisamos abrir mão da beleza. O problema nunca foi a imagem ser atrativa; o problema é ela ser vazia.






