Será que pra ser profissional que trabalha com estética tenho que ficar fazendo tending do tiktok com cara de idiota e dancinhas desengonçadas?
Será?
Será que tenho que ficar divulgando produtos como sendo a única ferramenta para tratamento ao invés de fazer um plano de tratamento especifico para o meu paciente?
Será?
Será que não vale a pena questionar se os tratamentos “mais vendidos da Coréia do sul” são aplicáveis aqui no Brasil?
Antes que sua atenção disperse e você dê um “arrasta pra cima” nesse artigo pensando que está no TikTok, vamos falar sério. E eu começo falando sério contando mais um causo. Gosto de contar causos.
Entre 2018 e 2019, começou a moda de vender a Coreia do Sul como a 'Meca' da estética facial, como se o país personificasse a beleza contemporânea e como se essa metade de península no leste asiático guiasse o mundo conforme sua vontade estética.
Sim, o mercado de estética lá é gigante, talvez maior que aqui do Brasil, mas o ponto que quero chegar é outro. Na emenda dessas carreatas coreanas que iniciaram naquela época (e que ainda acontecem), tivemos coisas curiosas acontecendo aqui no Brasil.
A primeira, é que os gurus harmonizadores, depois de uma mísera semana viajando lá na Coréia do Sul, voltavam com a mala cheia de coisas. Sim, produtos e medicamentos importados ilegalmente e sem ANVISA.
Mas uma dentre as várias embalagens que vinham mocozadas na mala, também era importado de lá a vontade de “espalhar a palavra”. Sim, quase no sentido religioso mesmo.
Não teve um professor que, ao chegar da viagem, não tenha lançado um curso com as “Técnicas do oriente” para qualidade de pele, para lift facial com fios, para bioestimuladores, etc…
Não falhou um.
Foram dezenas de cursos falado de técnicas que o proprio professor sequer teve tempo de praticar, até porque estes cursos eram lançados diretamente da Coréia. Postagens do cidadão, ainda na viagem, dizendo que estaria aprendendo muito e que assim que chegasse iria compartilhar todo conhecimento adquirido mediante um preço módico.
Meio que pra pagar a viagem, sabe? Um dizimo pra ajudar o pastor no aprimoramento profissional dele.
Como se nesse período exíguo de 168h (1 semana de viagem) divididos em muito tempo dentro de um avião, outro tanto em áreas de embarque, um ou dois dias acompanhando professores contratados por empresas para mostrar seus produtos e o resto fazendo compritchas nos vários mercados orientais de lá tivesse sido mais que o suficiente para capacitar o profissional a ensinar as “técnicas coreanas”. (ok, infame. Todos os mercados da Coreia do Sul são orientais)
E é aqui que entro no tema principal deste artigo:
A Globalização da Estética
Globalização é algo… paradoxal, vou preferir esse termo.
Sob uma perspectiva técnica e científica, a globalização atua como um “catalisador de progresso”, em que inovações tecnológicas e novos protocolos médicos ultrapassem fronteiras muito rápido. Se levarmos isso pra harmonização facial, essa integração possibilita o acesso imediato a insumos e bens (medicamentos, tecnologia, etc) de última geração e a métodos de vanguarda desenvolvidos em polos de excelência mundiais
Neste aspecto, o intercâmbio de conhecimento, insumos e tecnologias democratizam a ciência e, teoricamente, podem beneficiar muito os pacientes. Mas ainda dentro do contexto estético, essa globalização tenta impor padrões estéticos universais sobre realidades anatômicas distintas.
Por isso vimos (pelo menos quem atuava na área nessa época viu, penso eu), técnicas de lift com fios de PDO que deixaram os rostos redondos e mais cheinhos, em nada parecido com a estética que os pacientes buscavam.
Ao simplesmente mostrar “técnicas coreanas”, de forma acrítica e sem nenhuma vivência dos possíveis resultados, os professores só fizeram transpor técnicas desenhadas especificamente para o fenótipo leste-asiático — com suas particularidades de estrutura óssea e projeção facial — para o contexto brasileiro.
Em uma nação marcada por uma heterogeneidade fenotípica gigante como nós, é um erro básico. Enquanto o protocolo coreano muitas vezes foca na suavização e redução de volumes, eliminando qualquer dobra ou sombra no rosto, a face “brasileira” (se é que existe só uma) frequentemente demanda estruturação e contornos diametralmente opostos.
Foi quase que uma forma de aculturação forçada. Seria uma tentativa de dominação para criar uma versão latino-coreana do BTS ou Blackpink? Tipo Menudos Sul-Coreanos Latino americanos? Brincadeiras a parte, isso ainda vem acontecendo.
Umas três ou quatro semanas atrás a Roberta me mandou uma postagem do Instagram com uma professora, conhecida até, que está oferecendo um curso de SUTURAS ESTÉTICAS FACIAIS.
Suturas estas que aparecem com detalhamento assustador num perfil chinês. Digo assustador porque bastaria uma pitadinha de sangue frio pra que um profissional mais atirado tentasse fazer igual só vendo pelo Instagram mesmo. EAD via midias sociais.
Mas não, a profissional foi na China pra aprender. Louvável, excelente, show de bola. Tem várias postagens da viagem dela e do curso que estava fazendo.
Dai mal pousou no Brasil, e lançou um curso.
Sim, hoje com uns dois meses mal completados da viagem da professora e ela já se mostra no Instagram com uma autoridade (que não tem) e com um curso prático com a técnica.
Sem casuistica, sem acompanhamento de longo prazo, sem resultados clínicos reais em pacientes fenotipicamente diferentes dos chineses…
Pode ser pior que isso? Pode.
E agora parece ser até pelo wi-fi, sequer precisa deslogar do Instagram pra ser lançado um curso de técnicas “inovadoras” por aqui. Na mesma vibe, outro perfil tentando emplacar um curso com a mesma técnica de sutura.
Mas desta vez sem ter sequer ter ido comer um bao no Império do Meio e conhecer os “criadores” das técnicas.
Porque no mesmo perfil tem um mundo de fotos de antes e depois imediato. Sem fotos de longo prazo, sem informações de materiais utilizados, sem explicar o detalhamento necessário para conseguir replicar com segurança os resultados.
Mas já tem curso da técnica. Já tem nome pra técnica, já tem workshop pra desenvolver a técnica. Já tem muitas, muitas postagens para vender o curso.
Falta pouca coisa. Por exemplo, falta um acompanhamento longitudinal com casuística grande o suficiente para ver como isso se comporta a médio-longo prazo. Falta possivelmente o material de sutura por aqui (porque claramente nos videos originais a sutura agulhada utilizada não existe por aqui). Falta, talvez, experiência em ensinar o que se está ensinando?
Mas o que falta pelo apuro científico, sobra de autoconfiança. Os pacientes que orem.



