Aviso de calendário: Black Friday é uma sexta-feira. A nossa também: 27/11, das 0h às 23h59. E na véspera tem aula ao vivo, de graça.
Toda virada de ano eu faço uma busca no site da Anvisa para ver as marcas que entraram no Brasil. Está ficando cada vez mais complicado porque do inicio de 2025 até hoje, tivemos 19 marcas de preenchedores novas, mais uns 6 bioestimuladores e o trabalho é grande
Mas não é sobre preenchedores que escrevo hoje, este ainda estou fazendo e vai demorar, mas algo que me chamou atenção e que quero compartilhar. E é sobre a Rennova, empresa que entrou no mercado da Harmonização Facial quando tudo era mato. Hoje esta especialidade é uma avenida de 4 pistas com canteiro central, cercada de vários arranha-céus e muito trânsito e, sobretudo, muita poluição.
A Rennova é, sem exagero, o melhor exemplo do mercado brasileiro de uma coisa que pouca gente percebe: o nome na caixa diz muito pouco sobre o que está dentro da seringa.
Como assim? Explico.
Quando pegamos uma marca famosa, por exemplo, a Allergan, Galderma, Merz entre outras menores, entendemos que todos os produtos da empresa são fabricadas sob uma mesma lógica, num mesmo processo, numa “conexão” entre os produtos.
Por exemplo: Se falo Juvederm, quase fica subentendido que todos os preenchedores da linha tem uma conexão. Ao citar qualquer um de uma linha, a Vycross, por exemplo, aparece lá Voluma, Volift, Volbella, Volux e Volite.
Outra coisa em comum é a identidade visual dos produtos. As embalagens conversam entre si, tem continuidade estética. Assim, portanto, parecem e são irmãos com mesmo pai e mesma mãe.
Mas na Rennova, parece a familia da Flordelis. Mas entenda: nada do que vou mostrar é ilegal, só é… estranho.
Nas minhas buscas na base de dados abertos da Anvisa com todos os produtos para saúde com registro vigente procurei tudo que leva o nome Rennova. E preciso falar que o Departamento de Assuntos Regulatórios deles deve ter coisa pra fazer, viu?. Olha o que encontrei:
41 registros no nome da Nutriex (a importadora por trás da Innovapharma), mais dois fios de PDO vendidos pela Rennova, registrados por outras empresas;
5 países: Áustria, Israel, Coreia do Sul, Argentina e China que fornecem tudo que a Rennova vende: Ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio, PLLA, laser, luz pulsada, radiofrequência, ultrassom, termoterapia, cânula, dermaroller…
17 fabricantes diferentes para produtos que parecem competir entre si…
Antes de seguir, um aviso importante: Comprar de terceiros e vender com marca própria (o tal white label, ou private label) é prática comum e permitida, e todos os produtos aqui têm registro válido na Anvisa. A AbbVie faz isso com o Hydryalix, a CIMED com o Milimetric. A questão não é a legalidade. É a transparência com quem compra e com quem recebe o tratamento, e é disso que trato neste artigo.
A árvore genealógica da Rennova
Para não misturar alhos com bugalhos, separei por categoria. Dentro de cada uma, organizei por “pai biológico”, ou seja, por quem fabrica de verdade.
Ácido hialurônico: 20 registros, 7 fabricantes
Croma Pharma (Áustria), a mesma fábrica do Saypha, produz estes:
Rennova Fill (80451960001), de 2010, o primogênito, registrado como “enxerto”
Rennova Lift (80451960015)
Rennova Lift Lido (80451960199)
Rennova Fill Lido (80451960200)
Rennova Lift Plus Lido (80451960242)
Na bula, a Rennova chama essa tecnologia de “exclusiva XPMTech”. Exclusiva de quem, exatamente, é uma ótima pergunta para o próximo representante, possivelmente não te responderão ou receberá uma resposta evasiva.
Panaxia (Israel), a mesma fábrica do Hydryalix e do HArmonyCa da Allergan, fabrica estes:
Rennova Skin Lido (80451960208)
Rennova Deep Lido (80451960204)
Rennova Ultra Deep (80451960207) e Ultra Deep Lido (80451960206)
Rennova Lips Lido (80451960211)
Aqui a tecnologia se chama “Hybrid MoBi”. Repare: é outro nome, de outra fábrica, num outro país.
Dr. Korman Laboratories (Israel), a mesma do HA3 Elastygen
Rennova Fill 12 Lido (80451960258)
Rennova Fill 20 Lido (80451960261)
Rennova Lift 23 Lido (80451960260)
Rennova Lift 26 Lido (80451960259)
Todos registrados entre maio e junho de 2026. É a linha mais nova da casa, com nomes quase iguais
Nas comunicações oficiais da empresa, não existe um detalhamento claro das indicações de cada um, é tudo muito confuso, com nomes parecidos até pra produtos completamente diferentes, vamos ver isso daqui a pouco. Outros preenchedores:
BNC Korea (Coreia do Sul), a fabricante do antigo Cutegel
Rennova Club: três registros de setembro de 2025 (80451960253, 80451960254 e 80451960255)
Hangzhou Singclean (China), a mesma do Singderm e do Evolve Fill
Rennova Club (80451960250), de julho de 2025
Pois é: tem “Rennova Club” coreano e “Rennova Club” chinês.
Humedix (Coreia do Sul)
Rennova Lido (80451960238)
Allanmar (Argentina), a mesma do Cientific e do Estrianon
Rennova Fill Hydro (80451960241)
Hidroxiapatita de cálcio: 4 registros, 2 fabricantes
Panaxia (Israel)
Rennova Diamond (80451960209)
Rennova Diamond Lido (80451960205)
Dr. Korman Laboratories (Israel)
Rennova Diamond Intense (80451960249)
Rennova Diamond Intense Lido (80451960252)
O Diamond e o Diamond Intense têm o mesmo sobrenome e saem de fábricas diferentes. Pelo jeito pensam que diamante é tudo igual… E qual diferença entre eles??
PLLA (ácido poli-L-láctico): 1 registro, 1 fabricante
Gana R&D (Coreia do Sul), a mesma do Gana V
Rennova Elleva (80451960236)
Equipamentos: 11 registros, 6 fabricantes
Zhengzhou PZ Laser Slim Technology (China)
Rennova Infiniti (laser de múltiplas aplicações)
Rennova Tesla (laser para depilação)
Rennova Unique (iontoforese)
Rennova Elleva Pro (ultrassom)
Rennova Complete (luz pulsada)
Rennova Silluet (radiofrequência)
Beijing ADSS Development (China)
Rennova Arctic (termoterapia)
Rennova da Vinci (alta frequência)
Beijing KES Biology Technology (China)
Rennova Intense (laser)
Shenzhen Leaflife Technology (China)
Rennova Diamond Tech (alta frequência)
GCS (Coreia do Sul)
Rennova Lift Pen (alta frequência)
Dai aqui nos equipamentos tem de novo Lift, tem Diamond, tem Elleva, tem Intense…
Acessórios: 5 registros, 2 fabricantes
Feel Tech (Coreia do Sul)
Rennova Cannula
Wenzhou Jinghuan Technology (China)
Rennova Cânula Perfect Precision
Rennova Cannula Perfect Flow
Rennova Dermaroller
Rennova Multi-Needle
Fios de PDO: 2 registros, 2 fabricantes, de outras empresas
Croquís: fabricado pela Samyang Biopharm (Coreia) e registrado pela Emergo Brazil (80117580983), desde 2022.
Rennova PDO Threads: fabricado pela Dermaline (Coreia) e registrado pela Bellefy (82721620002), em junho de 2026. A Rennova fez o pré-lançamento da linha no Summer Summit de setembro de 2026, com chegada ao mercado a partir de outubro. A Dermaline também fabrica o fio REDRAW, registrado pela mesma Bellefy, e o LineDerm, registrado pela Passrod.
O jogo dos nomes (ou: ache o Rennova certo)
Separado por categoria, fica fácil. O problema é que na clínica ninguém pede por categoria, pede pelo nome. E aí o negócio fica divertido. Ou assustador, dependendo de quem vai receber o produto no rosto.
O Rennova Lift Lido (80451960199) é austríaco, da Croma, e a bula informa 23 mg/mL. Em 2026 chegou o Rennova Lift 23 Lido (80451960260), que é israelense, da Dr. Korman, com um nome que sugere a mesma concentração. Mesmo sobrenome, mesmo número, fábricas diferentes. Se você pedir “um Rennova Lift” ao distribuidor, qual vem? Leia a caixa.
O Fill de 2010 e o Fill Lido são da Croma, na Áustria. O Fill 12 Lido e o Fill 20 Lido são da Dr. Korman, em Israel. O Fill Hydro é da Allanmar, na Argentina. Pedir “um Rennova Fill” não diz qual gel vai chegar.
Os homônimos entre categorias
Rennova Diamond é hidroxiapatita injetável; Rennova Diamond Tech é aparelho de alta frequência.
Rennova Diamond Intense é hidroxiapatita injetável; Rennova Intense é laser.
Rennova Elleva é PLLA injetável; Rennova Elleva Pro é aparelho de ultrassom.
Rennova Lift é ácido hialurônico; Rennova Lift Pen é aparelho de alta frequência.
Imagine a cena na clínica: “Doutor, quero fazer o Diamond que a minha amiga fez.” Alta-frequência ou hidroxiapatita?
Gente, me desculpe, mas poderia ter um pouco mais de elaboração na hora de escolher o nome pra diminuir a confusão, né? O setor regulatório até trabalha bastante, mas o de comunicação deve ter só estagiários.
O cidadão que adotar a marca fica biruleibe pra entender toda a nomenclatura, que se confunde em todos os aspectos, no nome, no fornecedor, na origem…
Tá, mas qual é o problema?
Vamos ser justos. Não há nada de errado em uma empresa brasileira buscar bons fabricantes lá fora e montar um portfólio. Várias marcas fazem isso, e entre os fabricantes da lista há nomes respeitados, como a Croma e a Panaxia.
O problema é outro, e é de comunicação:
Uma marca única passa a ideia de uma tecnologia única. Só no ácido hialurônico são sete fábricas, com pelo menos três tecnologias de reticulação diferentes. Quem usa “Rennova” há anos pode achar que está usando sempre o mesmo padrão de gel. Não está.
Experiência clínica não se transfere automaticamente. Gostou do Rennova Lift austríaco? Ótimo. Isso não diz nada sobre o Lift 23 israelense. Reologia, durabilidade, edema e resposta à hialuronidase podem mudar com a fábrica.
Literatura científica também não se transfere. Um estudo feito com o gel de uma fábrica não vale para o gel de outra só porque o nome na caixa é parecido.
Rastreabilidade. Em caso de evento adverso, o que importa é o número de registro e o lote. “Usei Rennova” não basta no prontuário.
É o mesmo princípio da marca própria de supermercado: o produto pode ser ótimo, mas quem fabrica muda conforme o contrato, e o rótulo não precisa contar isso em letras grandes.
O que eu faria no seu lugar:
Leia o verso da caixa, não a frente. É lá que estão o fabricante, o país e o número de registro.
Anote no prontuário o nome completo do produto, o registro na Anvisa e o lote, e não só “Rennova”.
Pergunte ao representante: “Quem fabrica este?” e “Este é o mesmo gel que eu usava antes?”. Se ele não souber, isso já é uma resposta.
Peça a reologia (G’, Tan δ, coesividade) de cada produto, e não da “linha Rennova”, que não existe como entidade técnica.
Confira o registro em consultas.anvisa.gov.br.
Por enquanto é só o que temos, a não ser que revejam a nomenclatura toda, o que acho impossível improvável que aconteça em algum momento.
A Rennova não é uma marca ruim. Ela só mostra, em uma única marca e sem querer, como funciona boa parte da estética injetável no Brasil: a importadora compra, renomeia e vende. Quem aplica precisa saber o que está aplicando.
E se um dia alguém te perguntar “qual Rennova você usa?”, agora você já sabe que a pergunta certa é outra: “qual fábrica?”.
Vale dizer: se a Innovapharma quiser esclarecer qualquer ponto, o espaço está aberto. Busquei a informação mais atual possível na base oficial da Anvisa, mas, se você encontrar algo discrepante, me avise nos comentários que eu corrijo.
Hasta!








