Seria mais um dos muitos e muitos mitos que cercam a toxina botulínica? Porque não faltam relatos anedóticos (um tipo de evidência baseada apenas em observação pessoal, coletada de maneira casual e não sistemática) sobre a suposta redução de efeito dos tratamentos nos periodos mais quentes do ano…
Será que a toxina sofre uma “degradação térmica” nos meses de calor? Então quem mora no Nordeste ou norte do país já se acostumou com a toxina durando menos e tudo bem?
Não existe (até onde pude verificar) um estudo clínico randomizado em que podemos afirmar que “o verão destrói a toxina”. O que existe é um conjunto de mecanismos fisiológicos de reparo neural e adaptação metabólica que, somados, pode criar um cenário plausível para a relatada recuperação funcional precoce da placa motora.
Mas temos que responder algumas questões pra chegar lá:
O Metabolismo Basal diminui no verão?
Vamos iniciar falando de termorregulação. O ser humano é homeotérmico, e precisa manter sua temperatura por volta dos 36,5ºC pra que suas funções biológicas funcionem como tem que ser.
Deste modo, podemos entender que no inverno, o corpo precisa gerar calor. A atividade da glândula tireoide tende a aumentar ligeiramente, e o Tecido Adiposo Marrom (BAT) é ativado para termogênese. Em contrapartida, no verão, o corpo realiza uma down-regulation da tireoide e suprime a termogênese visceral pra não esquentar demais, ou seja, a taxa metabólica basal (TMB) tende a ser menor em ambientes quentes para evitar o superaquecimento interno.
Então num primeiro momento justificar que a toxina acaba mais rápido devido a um “aumento no metabolismo” cai por terra. Isso porque temos que entender que o Metabolismo Basal (gasto energético para manter funções vitais) não é sinônimo de Cinética de Reparo Tecidual.
Vou colocar aqui uma hipótese a ser discutida daqui a pouco: no verão, até para a regulação térmica, ocorre uma vasodilatação periférica massiva para ajudar a dissipar calor.
Com isso, podemos entender que tudo que fica exposto ao meio, como a pele e a musculatura da mímica, por exemplo, podem receber um maior aporte sanguíneo. E, onde há mais sangue, há mais oxigênio e mais nutrientes biodisponíveis para os processos de regeneração celular.
Opa! Estamos chegando lá! Me acompanhe:
“Sprouting”
Eu não sou fã de termos em inglês porque o português, sobretudo o português brasileiro, é muito completo e sonoro, mas nesse caso o termo “Sprouting” acho mais interessante que “brotamento” neste caso.
Diferente de drogas que são metabolizadas por orgãos como rins e figado, a toxina botulínica trava seu combate exclusivamente na terminação nervosa, e seu efeito cessa porque o neurônio venceu o bloqueio.
O efeito simplificado é: a Toxina quebra uma das proteínas do complexo SNARE, a SNAP-25, impedindo a liberação de acetilcolina. Depois disso a cadeia leve (a parte ativa da toxina) fica escondidinha lá no citosol se fantasiando de proteinas endoplasmáticas e atrapalha todas as vezes em que a neurônio tenta reparar a proteína quebrada.
Não conseguindo vencer a batalha, o neurônio vai pro plano B: cria novos terminais laterais para contornar o bloqueio, os tais brotamentos nervosos, e aguarda a degradação natural da cadeia leve, que acontece em poucos meses. O tempo para voltar o movimento muscular é, essencialmente, o período de criação deste brotamento axonal.
Percebe que todo este processo é energia-dependente?
Ele exige ATP e transporte axonal de proteínas do corpo celular até a periferia. É aqui que as variáveis do verão (mais sangue, mais oxigênio, mais nutrientes) entram como aceleradores plausíveis (possibilidade, mas não certeza) para um eventual efeito mais breve.
Mas… o Calor Acelera o Reparo?
Sim e não. Aliás, depende.
Para entender, vamos usar a culinária e diferenciar dois tipos de calor: o calor suave do “pudim no verão” e o “estresse térmico” do pão no forno.
O Calor do Verão = Cozinhando um Pudim
Primeiro, pense no calor do verão como o processo de cozinhar um pudim em banho-maria. É um calor difuso, de baixa intensidade, que nos envolve por um longo período (no caso do pudim, uns 150-160ºC por 90 a 120 minutos). Assim como o pudim precisa desse calor suave e prolongado para atingir a textura ideal, sem furinhos e sem queimar, nossa pele exposta ao sol de verão sofre um aquecimento gradual e superficial.
Só que na vida real, a coisa é diferente. Primeiro, o calor do sol não chega numa profundidade que possa agir e estimular diretamente o nervo a fazer seus brotamentos. E segundo, ninguém fica 24 horas por dia, por meses, com o cocoruto tostando no sol. A gente pega uma sombra, toma uma água de coco, dá um mergulho na praia ou na piscina, dorme no ar condicionado...
O que ocorre, de fato, é uma vasodilatação intermitente, que varia muito de um dia para o outro e até mesmo ao longo de um único dia. Essa oscilação no fluxo sanguíneo poderia, em teoria, melhorar a perfusão local, fornecendo um suprimento mais rico de glicose e oxigênio para a região. Esse cenário poderia, potencialmente, dar um suporte marginal ao processo natural de reparo do nervo (brotamento). No entanto, é um estímulo inconstante e muito diferente do que vou chamar de “estresse térmico”.
Qual o peso real disso? Sinceramente, é incerto. Podemos levantar a hipótese de que estilos de vida com exposição solar intensa possam, talvez, influenciar a longevidade da toxina. Contudo, sem estudos controlados que comprovem e meçam essa correlação, qualquer afirmação nesse sentido é especulativa e carece de embasamento científico sólido.
O “Estresse Térmico” = Assando o Pão
Agora, vamos para o outro lado da cozinha. Um pão italiano precisa de um calor intenso e rápido para formar uma casca crocante e um miolo aerado (250-280ºC por 40-50 minutos). Se não tiver esse choque, ele fica embatumado. Ou seja, o estresse térmico faz parte do processo e tem um objetivo claro.
No nosso organismo, tratamentos como a radiofrequência ou o ultrassom microfocado funcionam exatamente como esse forno quente: eles aplicam um “estresse térmico” controlado, um pico de calor intenso e localizado nas camadas profundas da pele. A lesão térmica aqui é só um aviso, não o objetivo final. É uma notificação para as células ao redor de que elas precisam iniciar um reparo.
Este calor intenso pode acelerar o fim do efeito da toxina (leia de novo: acelerar o fim do efeito, não reverter) de duas maneiras:
Aumento do Metabolismo Local
A radiofrequência, por exemplo, eleva o metabolismo dos tecidos onde é aplicada através da degradação de algumas proteínas, induzindo a circulação local e a reparação tecidual. Essa agitação celular poderia acelerar a degradação da molécula da toxina botulínica, que é sensível ao calor. Já o Ultrassom Microfocado cria pontos de coagulação térmica (minúsculas “queimaduras” controladas a 75ºC) em pontos estratégicos, gerando uma resposta inflamatória potente.
Estímulo à Reparação Nervosa
O principal ponto é este. Estudos indicam que a terapia de calor acelera a regeneração muscular e nervosa. Ao aplicar esse calor controlado na área da toxina, você está “turbinando” o processo natural de brotamento neural. O dano térmico localizado força o organismo a iniciar um reparo: o corpo recruta macrófagos e fibroblastos para remodelar o colágeno e, “de tabela”, essa tempestade de fatores de crescimento pode acelerar a recuperação do nervo que estava bloqueado ali do lado.
Então eu preciso cancelar minhas férias na praia?
Calma, pode pegar o isopor na garagem e cancelar sua passagem pra Finlândia. A resposta curta e grossa é: não, o verão não vai aniquilar o efeito de sua toxina.
O verão, com sua vasodilatação, talvez só dê uma carona mais eficiente para os “materiais de construção” que seu neurônio-trabalhador já ia usar de qualquer jeito para fazer o sprouting.
Mas se você resolver fazer uma radiofrequencia ou ultrasson microfocado, aí sim é provável que o efeito dure pouco menos. O quanto menos? Não sabemos, ainda.
Hasta


