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Harmonização Facial

Uma Revisão sobre o SMAS, mesmo não precisando

Já ouviu falar que o Sistema Músculo-aponeurótico superficial, ou SMAS, não é de fato uma estrutura anatômica reconhecida? Neste artigo explicamos tudo!

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Roberta Zaideman Azar
jan 19, 2026
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Contexto: recentemente participei de um treinamento de uma empresa em que o professor convidado para a aula de anatomia afirmou que SMAS não é um termo correto e sequer reconhecido na Anatomia. Resolvi estudar o tema, e aqui está minha resposta.

Professor,

Tenho refletido bastante sobre a aula que tivemos no treinamento. Foi meu primeiro contato com seu conteúdo e, confesso, ele me tirou da zona de conforto. Sempre que encontro um raciocínio que foge do habitual, do automático, tenho o costume de parar, refletir e estudar um pouco mais, até para rever meus próprios conceitos; o autoquestionamento sempre me veste bem. Então, antes de mais nada, obrigada por esse estímulo!

É curioso como esses temas polêmicos — tanto na HOF quanto na vida — sempre encontram fundamentos para amparar os dois lados, os que concordam e os que não concordam. Mas isso tem uma explicação: a tendência natural do ser humano ao tal “viés de confirmação”. Há um livro bem bacana, chamado “A Mente Moralista”, que mostra como nossas opiniões são moldadas pelas nossas experiências (o que explica por que é tão difícil fazer alguém mudar de opinião, mesmo diante dos melhores e mais evidentes argumentos) e como acabamos buscando, até mesmo sem querer, algo que sustente o que já acreditamos. Ou seja, praticar a “hipótese nula” é um desafio e tanto, mesmo para os mais bem-intencionados.

E, quando o assunto é o SMAS, a coisa fica ainda mais cinzenta. Como demonstrado pelo próprio Mendelson, esta é uma estrutura que acaba sendo “criada” ou definida na ponta do bisturi durante as dissecções ou cirurgias faciais, o que torna tudo muito ambíguo. Por isso, senti vontade de organizar alguns pontos que andei lendo sobre essa nomenclatura e a anatomia da região, para tentar amarrar essas diferentes interpretações.

Consegui compreender que o cerne de sua apresentação não é a negação da existência dessa estrutura, mas sim o entendimento de que o rótulo “SMAS” não reflete adequadamente suas características físicas. Compreendi também que sua crítica recai sobre a taxonomia e a semântica do nome. E foi sobre isso que foquei a minha compreensão e entendimento desse estudo.

Só antes de iniciar, deixa eu comentar algo que descobri durante este estudo. Sempre utilizo, assim como o senhor também usou em aula, o termo “nomina anatômica” para me referir às nomenclaturas anatômicas oficiais, até porque acho muito chique essa palavra. Mas este é um termo obsoleto e que foi substituído pelo termo atual, “Terminologia Anatômica”, em 1998. Estamos defasados professor. Gostava tanto da palavra “nomina”.... Triste.

Transcrição literal da fala do professor durante o treinamento:

….SMAS é termo que não existe na anatomia…. Porque não existe SMAS em anatomia?...

SMAS é um sistema musculoaponeurótico superficial…. Você sabe de onde vem isso aí? Esse termo é oriundo de um erro de tradução feito pelo cara que inventou a tipóia, que eu nunca lembro o nome desse cara. Mas é o cara que inventou a tipóia. E sabe de onde vem isso aí? Vem da década de 70. Então SMAS é um termo que não existe na anatomia desde da década de 70 que foi abolido….

Porque não existe SMAS na anatomia? O que é SISTEMA? É quando eu tenho vários órgãos contribuindo com uma mesma função: sistema circulatório, sistema nervoso (tenho sistema nervoso central, sistema nervoso periférico e sistema nervoso autônomo tudo isso contribui para a mesma função), sistema digestório (eu tenho desde a minha boca até estômago intestino delgado intestino grosso contribuindo sistema digestório) ,... Isso são sistemas, são quando vários órgãos contribuem com a mesma função. Uma membrana não pode ser considerada um sistema, ela é só um tecido conjuntivo.

Então o primeiro ela não é um sistema. Segundo, ela não é músculo porque ela não tem unidade contrátil. Então ela não é sistema e não é músculo. Aponeurótico, muito menos. Por que? O que é uma aponeurose? É um elemento de fixação de músculos planos.

O músculo se fixa no osso ou em uma outra estrutura através de um tecido conjuntivo denso fibroso. Se esse tecido conjuntivo denso fibroso advier de um músculo fusiforme, ele será chamado de tendão. Se ele advier de um músculo plano ele será chamado de aponeurose. Então quantas aponeuroses nós temos na nossa cabeça, do pescoço pra cima? Uma! Aponeurose epicrânica, que une a parte frontal do occipitofrontal à parte occipital do músculo occipitofrontal. Para ser aponeurose tem que estar fixando um músculo plano isso não acontece.

Então não é sistema, não é músculo e não é aponeurose…. Talvez a única sigla que esteja certa, seria a última, que é o “S” de superficial, de fato, ele é superficial. Isso já é alvo de críticas em artigos científicos mais bem elaborados, como o do Mendelson 2024.”

SOBRE O ERRO DE TRADUÇÃO

Iniciei pesquisando sobre a idéia de o termo ter surgido de um erro de tradução feito pela mesma pessoa que teria “inventado a tipoia” (suporte imobilizador).

Fui atrás dessa cronologia e percebi que a criação da tipoia não foi atribuída a uma única pessoa ou a um inventor específico, os relatos deste suporte remontam centenas de anos. Aliás, o termo vem do tupi antigo "typoya" para um envoltório de carregar bebês ou mesmo para as redes de descanso…

O que descobri que, talvez, esteja relacionado ao que o senhor comentou em aula, é que o sueco Tord Skoog (1974), que revolucionou as cirurgias de face justamente por descrever a suspensão da face como um sling (que pode ser traduzido como alça ou tipoia). O detalhe é que o Skoog não usava a sigla SMAS; ele ainda chamava de “fáscia superficial”. O nome SMAS só apareceu em 1976, com os franceses Mitz e Peyronie.

Pelo que pude compreender, não foi um erro de tradução típico — como se alguém tivesse esquecido o dicionário.

Parte dessa polêmica talvez resida em um choque de culturas acadêmicas. O termo SMAS nasceu na França (Système musculo-aponévrotique superficiel), onde a escola francesa utiliza o termo ‘Système’ com uma conotação muito mais funcional e mecânica do que a nossa Terminologia Anatômica permite no Brasil. O que para os franceses descreve um “conjunto coordenado de tecidos”, para nós, sob o rigor da SBA (Sociedade Brasileira de Anatomia), descreve

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