Em 1987, eu, com 11 anos, ganhei uma revista fininha, de poucas páginas, que veio gratuitamente encartada em uma assinatura da minha mãe. Era a Superinteressante número zero. Na época, gostei tanto da “amostra” que, ato contínuo, ganhei uma assinatura de presente. Passei a receber, todo mês, a Superinteressante e um pacote de gibis da família Pato da Disney. Hoje estou com 50 anos e nunca deixei de assinar a revista. Atualmente, leio a versão digital, mas já são 39 anos lendo a mesma publicação, todo santo mês. E, sim, também continuo lendo gibis da Disney. Sou uma pessoa de hábitos. Mas os gibis não são o assunto deste artigo.
Por mais críticas que possam existir sobre a forma como as matérias abordam os conteúdos, revistas como a Superinteressante e a Galileu (que li por muitos anos também, desde quando ainda se chamava Globo Ciência) têm uma função muito nobre de trazer a ciência para quem não tem uma formação técnico-acadêmica.
E já ouvi muitas justificativas para indicar que estas publicações seriam “ruins” cientificamente: elas fazem revisões narrativas, parecem tendenciosas em alguns momentos e não seguem uma metodologia científica.
Mas será mesmo que isso é uma problematização do que não é problema? Pelo jeito, para os mais puristas, a ciência só deve ser divulgada utilizando exclusivamente o rigor do método científico.
Mas me pergunto: porquê?
Hoje, se um leitor comum, daqueles que podem ler um romance ou uma materia de jornal entendendo o contexto e consegue interpretar os acontecimentos, por exemplo, pegar um artigo científico qualquer, de fora de sua área de conhecimento, possivelmente vai se deparar por frases labirínticas, jargões técnicos e no final tem uma grande chance de se sentir intelectualmente incapaz.
Vamos pegar o início de um artigo de 2009 de grande importância do quimico Henri Kagan, que recebeu o Nobel de Quimica agora em 2026:
Existe a necessidade de preparar compostos enantiomericamente puros para diversas aplicações. Uma abordagem eficiente para alcançar esse objetivo é a catálise assimétrica. O catalisador quiral é geralmente preparado a partir de um auxiliar quiral, o qual, por sua vez, é derivado de um produto natural ou obtido pela resolução de um precursor racêmico.
Entendeu alguma coisa? Eu não. Mas veja a diferença se pegarmos um trecho de um artigo de 1953 que primeiro descreveu o formato dupla hélice do DNA:
Desejamos propor uma estrutura para o sal do ácido desoxirribonucleico (DNA). Essa estrutura apresenta características inéditas de considerável interesse biológico. Uma estrutura para o ácido nucleico já foi proposta por Pauling e Corey. Eles gentilmente nos disponibilizaram seu manuscrito antes da publicação. O modelo deles consiste em três cadeias entrelaçadas, com os fosfatos próximos ao eixo da fibra e as bases na parte externa.
Muito mais compreensível, concorda? Eu gosto da frase de abertura: Desejamos propor uma estrutura…
É de uma humildade incrível, na primeira frase de um artigo que mudou os rumos do conhecimento do DNA e que, em pouco mais de 1 página, concedeu aos autores James Watson and Francis Crick o Nobel de Medicina em 1962.
Outro exemplo. Há uns 10 anos eu li A Origem das Espécies, do Charles Darwin. Pelamordedeus que livro chato, repetitivo, mas não é este o ponto: o fato é que um leigo consegue ler e entender. É um livro que teve uma importancia tão grande para a ciência e para a compreensão da vida e que é plenamente compreendido por uma pessoa “comum” (desde que o leitor supere chatice do livro).
Então porque trabalhos científico que foram escritos há 80, 100, 150 anos eram compreensíveis e um que foi escrito a pouco mais de 10 anos não? O que aconteceu com a literatura científica desde o século XIX até hoje?
Você poderá responder algo como: se sabia menos coisas, o conhecimento era mais limitado. Ok, tem razão. Tem algum sentido, mas não responde o principal: a lingua, o idioma não mudou, então as palavras difíceis de hoje já existiam seculos atrás. Mas não eram usadas como um limitador para a compreensão do texto.
Hoje, elas formam um muro cognitivo intencional. Ou, em outros termos, usam a alienação (ou o desentendimento) do leitor para conferir status a quem escreve. E muito, muito poder a quem publica.
A mentira de que a ciência precisa ser ilegível
Daí chega você, pequeno gafanhoto, e fala que tem que ser assim mesmo!
Isso não é um muro cognitivo, isso é o rigor exigido pelo método científico. Não podemos simplificar, senão perdemos a precisão
Aí você está enganado. Método científico exige sim rigor. Mas na forma de pensar e de testar a realidade, não de explicar os resultados.
Obviamente, um bom artigo exige que os passos técnicos sejam descritos com clareza cristalina para que outro cientista do outro lado do mundo consiga reproduzir o experimento.
Uma escrita confusa, cheia de acessórios e excessos sintáticos, atrapalha a reprodutibilidade. A clareza deveria ser a maior aliada do método científico, não a sua inimiga.
Um exemplo muito bom disso é a forma como Albert Einstein descreveu sua Teoria da Relatividade em 1905. Ele fez quase um bate papo com o leitor, como uma conversa lógica, repleta de experimentos mentais imaginando trens e relógios (puxando pela memória, a Superinteressante número 2, lá em 1987 trazia o bigodudo na capa explicando exatamente esta “simplicidade acadêmica”)
Veja que estas idéias que coloco neste pequeno artigo não tirei do nada.
O estalo aconteceu quando estava estudando para montar o módulo de Metodologia Científica aqui pra nossa especialização. Do nada topei com um trabalho, publicado em 1992 em que o pesquisador Donald P. Hayes decidiu medir a “dificuldade lexical” (a complexidade do vocabulário) das publicações científicas ao longo de 145 anos.
Ele até deu notas pra complexidade. Analizando os textos da Nature, uma das mais renomadas revistas científicas do mundo, publicados entre 1869 e 1947, os artigos possuíam uma complexidade de vocabulário nota zero (0.0). Isso significa que, por quase um século, eles eram escritos com a mesma fluidez de um jornal diário. Qualquer pessoa alfabetizada, com o ensino médio completo, conseguia ler sobre as maiores descobertas de biologia, física e química da sua época.
Uma colocação interessante neste artigo foi o proprio Hayes apresentar uma história curiosa: quando a clássica revista Scientific American tentou adotar uma linguagem rebuscada e “profissional” ela perdeu 125.000 assinantes em tempo recorde.
As pessoas queriam ler ciência, mas se recusaram a decifrar os textos. Mas precisamos entender que um material científico tem dois publicos distintos:
O leitor comum, que quer ler sobre ciência, não tem e nem precisa ter um repertório técnico muito elaborado para analisar os textos, estes tem que ser simplesmente entendíveis em seu conceito e contexto principal.
O pesquisador, profissional do campo, existe a necessidade de uma análise mais critica, que demanda formação de repertório para conseguir entender as entrelinhas, as minúcias do que está no papel.
É como eu, um leigo, ler Thoreau e gostar da idéia de vida simples que ele prega em Walden e um estudioso do tema ler exatamente o mesmo texto e conseguir contrapor as idéias colocadas, associar com outros filósofos e conceitos.
Um mesmo texto pode atender dois publicos. Pode e deveria, mas hoje isso não acontece mais.
A Industrialização do Texto e o “IMRAD”
Com mais conhecimento sendo criado, a demanda de publicações científica explodiu, sobretudo nas décadas iniciais após a II Grande Guerra. Tinham mais artigos para serem publicados mas faltavam revistas.
O que fazer? Editoras grandes, percebendo esta demanda, passaram a criar cada vez mais revistas, e receber cada vez mais artigos. Porém como proceder com a análise técnica destes artigos. Sendo algo científico, é de se esperar que um profissional habilitado leia e interprete o conteúdo, para compreender o texto num nível muito mais elaborado do que um leigo.
Teria de ser uma leitura mais rapida, e organizada, já que a quantidade de informações estava se escalonando. E pra isso, porque não trazer uma formatação padrão, que acelerasse a interpretação técnica do que estava sendo publicado?
Foi assim que se consolidou então o formato IMRAD (acrônimo de Introduction, Methods, Results, and Discussion).
Hoje, numa leitura técnica, é esperado que o conteúdo venha organizado neste formato. O IMRAD em si não é ruim, mas ele transformou a prosa científica num formulário burocrático feito para leitura dinâmica de revisores apressados e cheios de texto para colocar em dia.
Outra coisa que aconteceu foi o apagamento do cientista na linguagem do artigo. Ele continua sendo o autor, mas lida com o que fez de forma invisível. Não vamos encontrar nos artigos atuais um texto como “eu administrei a droga e observei que o rato morreu”. Mas vamos encontrar um distante e asséptico “foi administrado o composto farmacológico, após o qual observou-se um índice de mortalidade no espécime murino”.
Posso ter a impressão errada, mas se um professor escrever a primeira frase em um artigo, seus pares da universidade o chamarão de raso. E é engraçado porque dizem exatamente a mesma coisa, com a diferença que um leigo entenderia a primeira frase, mas não a segunda.
Poderia até dizer que o artigo científico parou de ser uma ferramenta de comunicação universal e virou um “comprovante de produtividade” exigido por universidades e agências de fomento, formatado para acelerar o processo dos editores de revistas, os mafiosos da vez.
A Máfia das “Big Five”
Ainda se uma pessoa tiver resiliência para quebrar a barreira da linguagem, dará de cara com outra parede: a barreira financeira.
Publicação acadêmica é o sonho molhado de qualquer capitalista. Vou explicar com uma analogia: imagine um restaurante onde você leva os ingredientes comprados com o seu próprio dinheiro, você mesmo vai para o fogão cozinhar, se serve, come e no final lava a louça e varre o salão; no final, ao ir embora, o dono do restaurante te cobra R$ 200 pela refeição.
Pode parecer estranho, mas é exatamente assim que funciona a indústria científica. É um oligopólio conhecido como as Big Five: Elsevier, Springer, Taylor & Francis, Wiley e SAGE. Juntas, essas megacorporações controlam mais de 50% de toda a produção científica mundial.
Agora que você entendeu a analogia do restaurante, vamos ver como estas empresas operam:
A pesquisa é financiada por governos, agências de fomento e universidades públicas. (Ou seja, financiada pelos seus impostos).
O cientista passa meses escrevendo o artigo e o entrega de graça para a revista.
A revista aciona outros cientistas (os peer-reviewers) para revisarem e atestarem a qualidade do texto. Eles fazem esse trabalho duro totalmente de graça, em nome do “prestígio acadêmico”.
A revista finaliza o texto, privatiza aquele conteúdo e cobra US$ 40 por um único download em PDF, ou dezenas de milhões de dólares em assinaturas anuais das bibliotecas das mesmas universidades públicas que geraram a pesquisa inicial.
Ah, mas existem muitos artigos científicos abertos e gratuitos”. Sim, existem. Mas, para deixar o artigo disponível, os PESQUISADORES pagam uma quantia (uma taxa chamada APC - Article Processing Charge). Sabe qual é o valor dessa taxa hoje? Pode variar de USD 3.000 a USD 10.000 por artigo, dependendo da relevância da revista. As editoras deram até um nome bonito para as publicações que pagam a taxa: Acesso Aberto (Open Access). É “aberto” porque elas já receberam antes para liberá-lo. Não porque são “do bem”…
É ou não é um sonho capitalista? Esse cartel opera com margens de lucro anuais que beiram os 40%, indices muito superiores a gigantes como Apple, Google e Amazon. E eles conseguem isso sem gastar um centavo com a produção da matéria-prima que vendem.
Teoricamente, a lei internacional de propriedade intelectual é clara: descobertas científicas, dados brutos, ideias e algoritmos matemáticos não têm direitos autorais. Eles são patrimônio da humanidade.
O Direito Autoral (ou Lei de Copyright) protege apenas a forma de expressão — as frases exatas usadas, os gráficos desenhados, a diagramação da página.
Mas, sempre tem um mas, estas megaeditoras usam contratos de transferência exclusiva de direitos autorais para se apoderarem do arquivo final. Ou os autores assinam, ou não são publicados. Na pratica, elas trancam o acesso aos dados reais da pesquisa.
Perceba que o artigo científico deixou de ser um veículo de documentação do progresso humano para se tornar um ativo financeiro especulativo na mão de atravessadores.
O Artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos garante o “direito a todos de participar dos benefícios do progresso científico”. Contudo, esse direito é uma farsa quando o sistema afasta a sociedade usando um dialeto intencionalmente confuso e, se você ousa tentar ultrapassar o muro de pagamento (paywall), é extorquido financeiramente.
Enfrentar essa máfia é um dever dos governos. Historicamente, o Brasil já provou que isso é possível ao decretar a quebra de patentes de medicamentos no passado. Essa atitude barateou tratamentos, rendeu aplausos globais e provou que a vida humana tem precedência sobre os lucros de monopólios estrangeiros.
Por que não assumir essa vanguarda novamente? Uma cruzada global pela abertura das publicações científicas teria apoio imediato do chamado Sul Global. São inúmeros países com cientistas de altíssima competência, mas que vivem à margem da inovação simplesmente porque não têm orçamento para pagar o pedágio das grandes editoras. É hora do governo tratar o acesso à ciência com a mesma urgência que trata a saúde pública.
Até que esse dia chegue, plataformas de “bibliotecas sombra” (shadow libraries) como o moribundo Sci-Hub, Library Genesis ou o gigantesco Anna’s Archive não devem ser tratadas como “problemas de pirataria”, mas sim como plataformas de compartilhamento do conhecimento.
Em um sistema que sequestra a produção financiada pelos cidadãos para gerar lucros em paraísos fiscais, acessar e compartilhar PDFs científicos “piratas” não é um crime moral. É a legítima defesa do nosso direito fundamental ao saber.
Só mais uma consideração:
O Jornalismo Científico foi pras cordas
Veja só que curioso: hoje, temos um jornalismo dedicado a “interpretar” o artigo para a população, já que o original não consegue transmitir esta informação.
Dai você imagina uma redação de jornal, prazos curtíssimos para entregar uma matéria e na sua frente um PDF de 20 páginas escrito de forma criptografada. Não a toa, o jornalista entra em desespero. Sem tempo (e frequentemente sem a formação técnica específica), ele desiste de ler o estudo real. Para escrever a matéria, ele lê apenas o Abstract (o resumo inicial), procura a frase de efeito mais polêmica solta no texto, ou, pior ainda, apenas copia o press-release elogioso que a universidade lançou antes do artigo.
Não é de se estranhar que o jornalismo em tempos de midias sociais basicamente virou um “telefone sem fio” caótico. Procura-se o clickbait, nunca a realidade.
Daí vira até piada: títulos que lançam as afirmações mais estranhas possiveis, tipo “Gengibre melhora a periodontia”, “Chá de berinjela resolve seu colesterol”, ou mais grave “Estudo prova que vinho cura câncer” em um mês, e “Vinho causa câncer” no mês seguinte.
Penso que se a linguagem acadêmica fosse formal, porém inteligível e humana, jornalistas teriam a capacidade real de ler a metodologia, compreender as falhas e limitações do estudo, e informar a sociedade de maneira honesta. Como a Superinteressante faz. Mas é pouco, precisamos de mais e mais alternativas.
A obscuridade dos textos acadêmicos não é um problema de estilo; ela é exatamente o motor que gera desinformação em massa e alimenta movimentos anticiência. O público, cansado se achar ignorante por não compreender um texto científico, passa a desconfiar de tudo e pode virar massa de manobra de um negacionismo tão doentio que o faz engolir desinfetante contra vírus ou beber detergente contaminado para afrontar alertas de saúde.
É o triunfo macabro da desinformação: fazer com que a vítima acredite que engolir orgulhosamente um veneno seja o ápice do próprio pensamento crítico.



