Na prática da Harmonização Orofacial (HOF) e da odontologia, uma dúvida muito comum surge na hora de preparar o paciente para um procedimento: deve-se utilizar um anestésico com ou sem vasoconstritor? Muitos profissionais chegam a cogitar que o uso da versão sem vasoconstritor seria mais seguro por permitir que o paciente sinta uma dor momentânea, servindo como um “alerta” de perigo durante a injeção. No entanto, é fundamental desmistificar essa ideia.
Primeiramente, a presença ou ausência do vasoconstritor não interfere na capacidade de bloquear a dor — essa é a função exclusiva do sal anestésico. Se o paciente está anestesiado, ele não sentirá dor, independentemente do uso do vaso. O que o vasoconstritor realmente altera é o tempo de duração da anestesia e a dinâmica dos vasos sanguíneos locais.
O principal benefício do vasoconstritor é agir contra a vasodilatação. Quando a pele sofre um estímulo ou trauma, é natural que os vasos se dilatem, aumentando o fluxo sanguíneo e deixando a região avermelhada e quente. Em procedimentos estéticos, vasos dilatados (mais largos) são alvos fáceis para agulhas, aumentando consideravelmente o risco de perfurações e, o mais grave, de injeções intravasculares (embolização) por preenchedores. Ao utilizar o vasoconstritor, o calibre de artérias e veias diminui. Isso torna a aplicação de bioestimuladores ou ácido hialurônico muito mais segura em áreas como a fronte (na técnica de hidrodissecção) e os sulcos nasogenianos.
Contudo, a segurança proporcionada pela contração dos vasos tem um custo: a diminuição temporária da oxigenação local (isquemia). Por isso, existem áreas onde o uso do vasoconstritor não é uma boa ideia. Em regiões de tecido muito delgado ou com vascularização mais sensível, como certas partes do nariz ou no lóbulo da orelha (em procedimentos de fechamento de orelha rasgada), a isquemia prolongada gerada pelo vasoconstritor eleva drasticamente o risco de necrose tecidual.
Outro desafio que o vasoconstritor impõe, especialmente para profissionais iniciantes, é o diagnóstico visual. Como ele causa uma isquemia seletiva, a pele da região fica esbranquiçada. Durante a aplicação de preenchedores, essa palidez anestésica pode ser facilmente confundida com uma oclusão vascular real causada pelo produto. Embora uma simples manobra de compressão ajude a diferenciar a causa da isquemia, alguns profissionais optam por anestésicos sem vaso em áreas superficiais apenas para evitar essa confusão visual.
Vale lembrar que optar por um anestésico sem vasoconstritor significa reduzir drasticamente o tempo de anestesia. Uma alternativa clínica é a troca do sal anestésico — como substituir a lidocaína por uma articaína sem vaso, que permanece ativa por mais tempo no tecido, embora exija atenção à sua toxicidade.
Em conclusão, não se pode classificar o vasoconstritor como um “problema” ou uma “solução” absoluta. A escolha entre usá-lo ou não depende inteiramente de uma indicação clínica criteriosa, que deve avaliar a região anatômica abordada, o risco de necrose e o tempo necessário para executar o procedimento com excelência e segurança.












