Fórmula Personalizada uma pinóia...
O Lado Obscuro das Farmácias de Injetáveis de Estética
Ao atender um paciente, você percebe que o tratamento desejável para um paciente não pode ser obtido com medicamentos e produtos “de prateleira”. Daí, nada mais justo, é fazer uma fórmula personalizada, com os ativos dérmicos específicos para aquele tratamento.
Ainda bem que existem as fármacias magistrais, não? Vamos fazer uma formulação específica, e pedimos para manipular!!
Proximo passo é entrar em contato com umas das várias farmácias que se dizem de manipulação e pedir, correto?
Depois de preencher um cadastro, você passa o receituário para o atendente, querendo uma cotação, prazos, entrega, etc. Neste momento tem 2 caminhos possiveis, nenhum deles aquele que você imaginava:
Para aviar esta receita, o pedido tem que ter pelo 50 (ou mais) frascos. “Não conseguimos manipular quantidades menores”, vai ser a resposta quando questionados.
“O doutor não quer escolher um medicamento de nosso catálogo, estes podemos entregar poucas unidades”.
Aí você se pergunta: se existe um catálogo de medicamentos pré-manipulados, então não é uma farmacia de manipulação, é uma farmacia regular, correto?
Correto, e vamos entender porque estamos sendo tapeados pelas farmácias.
O que é ser “Magistral”?
A palavra “magistral” deriva do latim magister — o mestre. Historicamente, a farmácia magistral representa a arte de formular o medicamento de forma personalizada, “pelas mãos do mestre”, para atender à particularidadede um paciente. Enquanto a indústria farmacêutica opera na lógica da produção em massa, criando medicamentos padronizados para um “paciente médio” hipotético, a farmácia magistral segue a lógica da individualização.
Em seu conceito base, a farmácia magistral existe para preencher lacunas que a indústria ignora: uma dosagem que não existe comercialmente, a exclusão de um corante que causa alergia a um indivíduo ou a combinação de ativos específicos para a pele de um único paciente. É, por definição, um serviço de saúde focado na fórmula nominal, preparada após a apresentação de uma receita médica para um CPF específico.
Já quando falamos de medicamentos injetáveis, existem também as farmácias magistrais especializadas em preparações estéreis.
Diferente de um creme ou de uma cápsula, o injetável “pula” as barreiras naturais de defesa do corpo humano (pele e trato digestivo por exemplo). Por isso, a farmácia magistral de injetáveis deve operar em “Salas Limpas” com controle absoluto de partículas e microrganismos.
Ainda que legalmente opere sob o mesmo guarda-chuva regulatório das farmácias de manipulação comuns (a RDC 67/2007 da ANVISA), existe uma exigência adicional: o cumprimento do rigoroso Anexo VI, que trata de substâncias que serão injetadas diretamente na corrente sanguínea ou tecidos do paciente.
E isso é um grande “problema” quando falamos em individualização de fórmulas.
Por que o “Individual” é Inviável
O conceito fundamental da farmácia magistral é a preparação de um medicamento para um paciente específico, atendendo às suas necessidades biológicas únicas, conforme prescrição de um profissional habilitado.
Mas no mundo dos injetáveis (estéreis), essa premissa colide frontalmente com a matemática financeira e o controle de qualidade. Para garantir que um injetável seja seguro, ele deve passar por uma bateria de testes exigidos pela RDC 67/2007 da ANVISA. Os principais são:
Teste de Esterilidade: Exige a incubação da amostra em meios de cultura por no mínimo 14 dias.
Teste de Endotoxinas Bacterianas (LAL): Identifica fragmentos de membranas bacterianas que, mesmo após a morte do microrganismo, podem causar febre, choque séptico e morte.
Teste de Estanqueidade e Particulados: Garante que o frasco que vai “guardar” o medicamento não tem microfissuras e que a solução não contém cristais ou outras alterações.
O custo laboratorial para realização desses testes em um único lote é alto (podendo variar de R$ 500 a R$ 2000 dependendo da complexidade).
Na prática, significa que para a farmácia produzir uma única ampola de 2ml de “Mescla para Gordura Localizada” para o Paciente A, ela teria que cobrar do consumidor não apenas o insumo, mas o valor integral dos testes de bancada.
O resultado? Uma única ampola custaria o preço de dez, e demoraria pelo menos 14 dias para ser entregue…
Deste modo, o que fazem as farmácias? Frequentemente se negam a produzir fórmulas verdadeiramente customizadas.
Se um profissional solicita uma alteração pequena, tipo aumento de 0,5% na concentração de um ativo qualquer, a farmácia vai fazer de tudo pra “convencê-lo” a utilizar uma fórmula padrão que foi produzida em lote e já testada (já entraremos nisso) ou simplesmente recusa o pedido alegando “impossibilidade técnica”. Na verdade, a recusa é econômica: elas só produzem o que já está validado em lotes maiores, cujo valor do teste pode ser diluído em dezenas ou centenas de unidades.
Daí é hora de fazer um cambalacho: praticamente todas as farmácias “de manipulação” de injetáveis possuem de um catálogo de produtos como faz a indústria. Tem problema? Sim, tem:
O Fim da Autonomia do profissional da Saúde
Um dos pontos mais críticos da atual conjuntura é a inversão do fluxo de prescrição:
Tradicionalmente, o profissional avalia o paciente e decide a fórmula especifica para o paciente.
Mas no mercado de injetáveis estéticos, o processo está invertido: as farmácias enviam catálogos de “protocolos prontos” e ao profissional só resta “escolher” a fórmula que mais se assemelha ao que estava procurando.
Na prática, esses protocolos e medicamentos “sugeridos” são, na verdade, lotes industriais disfarçados.
Para entendermos o nível de “eficiência” (ou de distorção) a que chegamos, vale narrar um causo recente que beira o misticismo farmacêutico. Uma aluna nossa relatou que, ao encomendar uma mescla de ativos dérmicos no auge do mês de setembro, recebeu em seu consultório um produto impecável, cuja etiqueta ostentava, com orgulho, a data de fabricação: janeiro. SIM, JANEIRO!!!
Ora, estamos diante de um prodígio que a ciência moderna ainda não conseguiu explicar. Se a farmácia magistral, por definição legal, só pode “bater o martelo” e iniciar a produção após receber a receita nominal para o paciente “X”, como explicar que o frasco já estava pronto, testado e rotulado NOVE meses antes do profissional sequer pensar em prescrever?
Mas aqui a resposta é óbvia: as farmácias de injetáveis de estética não investem apenas em autoclaves e fluxos laminares; elas investem em bolas de cristal, videntes magistrais e oráculos.
É uma tecnologia espiritual: o farmacêutico, em um transe divinatório ocorrido em JANEIRO, previu que em setembro aquela aluna teria um paciente com aquela exata necessidade. Preparou a fórmula, submeteu-a à quarentena e a deixou guardadinha, em uma espécie de cápsula do tempo, apenas esperando o encontro do destino entre a agulha e o paciente.
Voltando a falar sério: isso é dar um drible da vaca na regulamentação.
A farmácia fabrica mil, duas mil ampolas da “Mescla XXXX” em janeiro. Realiza o controle de qualidade de um lote industrial e o estoca ilegalmente. Quando o pedido chega em setembro, o setor de vendas exige a receita nominal apenas para “vincular” o produto no sistema e dar um verniz de legalidade magistral ao que é, puramente, venda de prateleira.
Nesse cenário, o termo “personalizado” torna-se uma peça de ficção.
A farmácia não está manipulando ativos para o seu paciente; ela está, na verdade, manipulando o tempo, a lei e a sua inteligência. Se o medicamento que você prescreve hoje nasceu meses antes da sua consulta, você não está praticando tratamentos personalizados; você está apenas comprando um item de série em uma farmácia que tem medo de se chamar de indústria.
Isso é uma óbvia violação do espírito da manipulação magistral. Se o produto já está pronto antes da receita existir, a farmácia está atuando como uma indústria farmacêutica sem registro. A ANVISA, através da RDC 67, proíbe a exposição ao público e o estoque de produtos magistrais.
Ao oferecer um “cardápio”, a farmácia padroniza o tratamento, eliminando a individualização e transformando o profissional em um mero revendedor de um produto de prateleira.
Vamos falar de alguns rolos que aconteceram recentemente, mas enquanto isso, ainda que uma farmácia “manipule” uma quantidade menor de algum medicamento, também podemos encontrar outros problemas:
Estratégia das Soluções Galênicas
Base Galênica é um veículo preparado antecipadamente, que serve como “esqueleto” para a medicação final. Em uma farmácia de injetáveis, essas soluções podem ser fundamentais para viabilizar a logística de entrega:
A farmácia produz 5 ou 10 litros de uma solução base (ex: Solução Fisiológica com conservantes ou géis de carboximetilcelulose para bioestimuladores, por exemplo).
Esse “balde” é testado, validado e estocado. Quando chega uma receita, o farmacêutico retira uma quantidade prevista dessa base e adiciona o princípio ativo (o fármaco), embala e entrega o produto “verificado e validado”.
A brecha técnica reside no fato de que o produto final (Base + Ativos adicionados depois) raramente passa por um novo teste de esterilidade de 14 dias.
Assume-se que a manipulação em fluxo laminar foi perfeita, o que transfere toda a segurança da fórmula para a habilidade técnica do manipulador, sem a prova laboratorial do produto acabado que será injetado no paciente.
Muitas farmácias ignoram essa etapa final, entregando um produto que foi “estéril na base”, mas que pode ter sido contaminado na “finalização”. Embora a base esteja estéril, o ato de abrir o frasco e introduzir novos ativos (muitas vezes pós ou líquidos que não passaram por nova esterilização final) quebra a integridade do processo. A ANVISA permite a estocagem de bases, mas a manipulação final do ativo exige que o produto acabado seja, tecnicamente, testado de novo.
Veja, não tem irregularidade ao se utilizar de bases galênicas. É um recurso previsto no item 3.6 e 10.1 da RDC 67/2007, mas que vem sendo utilizado de forma distorcida pelo setor de injetáveis estéticos para contornar o tempo de análise do produto final, criando uma falsa sensação de segurança baseada apenas no teste do veículo, e não da mistura acabada que será injetada.
Ando devagar porque já tive pressa…
Temos portanto duas sitações. OU melhor, três:
Se você faz um pedido, a farmácia pode exigir uma quantidade mínima muito maior que o previsto para um determinado tratamento, a fim de diluir custos dos testes em cada unidade. Isso inviabiliza a personalização real, afinal qual paciente precisa de 50 ampolas de medicamento para um tratamento cosmético?
A farmácia pode manipular o material usando de bases galênicas e te entregar o produto personalizado, mas sob o risco de que o produto final não foi devidamente testado, e num prazo menor que o exigido legalmente.
A única forma de entrega rápida é se a farmácia liberou o produto antes do resultado do laudo. Um injetável legítimo não pode ser entregue em 24 horas se a farmácia seguiu o teste de esterilidade de 14 dias.
Algumas farmácias utilizam métodos de “esterilidade rápida” (como o sistema BacT/ALERT), que podem reduzir o tempo para 3 a 7 dias. Mesmo assim, o mercado da estética tem pressa. O paciente quer o procedimento “agora”. Para atender essa demanda, farmácias operam em um sistema de risco assumido: elas liberam o produto e, se o teste de 14 dias “der positivo” para bactéria após o paciente já ter sido injetado, elas tentam um recall silencioso — um cenário catastrófico. Imagine você explicando pro paciente:
Sabe aquele tratamento que fizemos semana passada com o medicamento manipulado? Então, a farmacia me ligou hoje falando que estava contaminado, vamos ter que iniciar um acompanhamento…
É surreal.
Para minimizar estes riscos, e é o mais comum, a farmacia te enviar um catálogo e você escolher o que é o mais próximo do que deseja, entendendo que a partir desta escolha você não teve a autonomia de uma prescrição verdadeiramente individualizada.
Mas precisamos tirar o elefante da sala: isso pode até ser algo interessante.
Farmácia não é teste gastronômico
Nem todo profissional está devidamente habilitado a criar suas proprias mesclas. É muito diferente fazer uma receita de bolo e fazer uma prescrição de um medicamento manipulado de múltiplos componentes.
Na pior das hipóteses o bolo desanda e fica ruim, o medicamento pode prejudicar um paciente.
Existem interações entre ativos, pH ideal de cada um deles, formas do organismo processar cada componente, e qualquer desequilíbrio nisso pode transformar um manipulado em uma bomba relógio. Imagine misturar 10, 15 substâncias em uma única ampola: tecnicamente, isso é um pesadelo de estabilidade química.
E garanto: a maior parte dos profissionais acham que elaborar estas formulas é igual fazer um coquetel: mistura tudo, coloca no copo e tá feito. Mas tem muita coisa que pode acontecer:
Interações de pH: Ativos como a Vitamina C exigem pH ácido para estabilidade, enquanto outros, como o Ácido Hialurônico, podem degradar-se ou precipitar fora da neutralidade. Quando a farmácia produz esses lotes pré-validados, a estabilidade é testada para o lote inteiro, mas pequenos desvios na manipulação final (”ajustes”) podem causar a precipitação de cristais microscópicos.
Osmolaridade: Injetar soluções com osmolaridade muito diferente do plasma humano causa dor intensa e morte celular local. Em lotes industriais (indústria real), o cálculo de osmolaridade é rigoroso. Na manipulação de “cardápio”, muitas vezes esse cálculo é ignorado em prol da “potência” da fórmula.
PDRN e Fatores de Crescimento: os novos “queridinhos” da estética. São proteínas termolábeis (sensíveis ao calor). Enquanto a indústria utiliza processos de liofilização caríssimos, farmácias de manipulação muitas vezes tentam manter esses ativos em soluções aquosas que perdem a eficácia em poucos dias. Quanto tempo o material pré-manipulado ficou guardado antes de ser entregue para você? Será que não vira um “placebo estéril” de alto custo?
Oxidação e a Enganação Visual: Algumas farmácias utilizam sequestrantes de oxigênio ou corantes para mascarar a degradação da fórmula. Uma mescla de Vitamina C que permanece perfeitamente transparente por meses em estoque (o “estoque profético” de janeiro) deve ser vista com suspeita: ou a concentração do ativo é irrisória, ou foram adicionados estabilizantes químicos não declarados que podem alterar o efeito biológico pretendido, eventualmente desencadear até processos alérgicos!
Isso só pra listar o que vem à cabeça…
Tivemos até uma briga recente com uma empresa, a Victalab, justamente porque enviaram um anestésico tópico pré-oxidado.
Foi um vai e volta de mensagem e o responsável de lá jurando de pé junto que é “normal” o produto ir mudando de cor com os passar dos dias, saindo de um creme branco para um de cor salmão. E depois ainda afirmando que “a base do anestésico realmente não está bem desenvolvida ainda”… Fora o odor absolutamente fora do esperado. Só rindo pra não surtar.
Veja como a situação é bastante complexa, ainda mais se o profissional não sabe avaliar o “estado geral” do medicamento.
Na prática, ao prescrever uma associação magistral complexa, o profissional deve (ou deveria) exigir da farmácia o laudo de compatibilidade e o valor de osmolaridade final.
A ausência desses dados transforma o procedimento estético em um experimento químico de campo, onde o paciente é o tubo de ensaio e as complicações são apenas uma questão de tempo.
Então veja só: um catálogo de produtos “pré-validados” deixa de ser algo necessariamente ruim. Teoricamente, só teoricamente, se uma farmácia manipular lotes de dezenas ou centenas de um determinado produto, ela deve testar a estabilidade da mescla que foi produzida, e, novamente, teoricamente entregar um produto mais estável, validado e funcional. Mas teoricamente.
Mas nesse caso, obviamente deixa de ser farmacia de manipulação, vira uma industria farmacêutica de pequena escala, e completamente irregular.
O “Prêt-à-Porter” Vendido como Alta Costura
A farmácia de manipulação nasceu para ser a “alta costura” da medicina — o terno feito sob medida para o corpo do cliente. Quando uma farmácia cria um catálogo de produtos pré-validados, ela abandona a alfaiataria e passa a ser uma fábrica de roupas em série (o prêt-à-porter), mas insiste em cobrar o preço maior por ser “personalizado” e de lambuja manter as isenções de uma oficina artesanal.
Explico: se um produto é padronizado, testado para estabilidade de prateleira e produzido em lotes às centenas de unidades, ele não é mais uma “fórmula magistral”. Ele é um medicamento industrializado. A diferença é que uma indústria real (regida pela RDC 301/2019) precisa de:
Registro individual de cada produto na ANVISA (um processo que leva anos e custa milhões).
Estudos de biodisponibilidade e bioequivalência.
Testes de estabilidade de longa duração (estudos que podem chegar a 24 meses em câmaras climáticas).
Uma estrutura de farmacovigilância robusta.
Ao operar com “catálogos pré-validados”, a farmácia de injetáveis usufrui do melhor dos dois mundos: tem a lucratividade e a eficiência da escala industrial, mas mantém a agilidade e a baixa carga regulatória da licença magistral.
Além disso, este argumento da “estabilidade garantida pelo lote” é uma meia-verdade. Na farmácia magistral, a validade do produto é, por regra, curta (geralmente de 30 a 90 dias), pois entende-se que é um produto que vai ser utilizado assim que for recebido pelo médico, não ficará em estoque.
Quando a farmácia produz um lote em janeiro para vender em setembro (no exemplo que demos acima), ela está sugerindo que aquela mistura complexa de muitos ativos se manterá estável sem nunca ter realizado um estudo de estabilidade acelerada e de longa duração real, como as indústrias fazem.
Elas validam a “estabilidade do lote” apenas para o momento da entrega, mas não têm dados reais sobre o que acontece com aquela química após 60, 90 dias no estoque da clínica do médico, oscilação de temperatura, transporte... É uma indústria de pequena escala que pula as etapas de segurança da indústria de grande escala.
Como Deveria Ser? Com Ética e Transparência
Não é necessário ser um expert em jurisprudência sanitária para perceber que a régua atual está quebrada. O setor de injetáveis manipulados não precisa de mais “jeitinhos” logísticos, mas de um choque de transparência que devolva ao paciente a segurança e ao farmacêutico a sua dignidade técnica.
Na minha opinião, para que a credibilidade seja recuperada, a reforma deve se basear em três pilares inegociáveis:
1. Rastreabilidade Real e o Direito ao Laudo
A confiança não pode ser baseada apenas no fio do bigode. O laudo de controle de qualidade deve ser entregue ao paciente (ou ao profissional) junto com o medicamento. Este documento não deve ser um papel genérico, mas um certificado que contenha as datas exatas de início e término dos testes de esterilidade e endotoxinas. Se a receita foi emitida na segunda-feira e o produto entregue na terça, mas o laudo de esterilidade exige 14 dias de incubação, a fraude estará exposta.
2. Limitação de Ativos
A “polifarmácia” em uma única ampola deveria ser desencorajada. Quanto mais ativos em uma solução, menor a previsibilidade de sua estabilidade e maior o risco de eventos adversos. A verdadeira personalização foca no que é essencial, e não em empilhar 15 substâncias para justificar um preço mais alto ou um marketing de “fórmula milagrosa”.
3. A Indústria de Pequena Escala
Se uma farmácia opta por produzir lotes, catálogos e manter estoques, ela deve deixar de ser regulada como farmácia magistral.
O Brasil poderia adotar modelos semelhantes como as Compounding Facilities ( epsecificamente as 503B Outsourcing Facilities) dos EUA: unidades que são, na prática, indústrias farmacêuticas de pequena escala.
Elas podem produzir lotes de medicamentos específicos que não interessam à grande indústria, mas são submetidas a exigências de farmacovigilância e controle de qualidade industriais, muito superiores aos de uma farmácia de manipulação comum.
Personalizar não é “Baratear”
É evidente que seguir esse rigor levará o medicamento individualizado a um valor muito mais alto do que é praticado hoje. Mas isso não é um erro, é um acerto. A farmácia magistral deve ser um centro de personalização, e não um entreposto de produtos de prateleira com preços variáveis conforme a moda do momento.
Porque na realidade acontece meio um leilão com os medicamentos: se o produto é de fato único, feito “só por uma farmácia”, os valores vão ser exorbitantes. Vejas estes inúmeros kit com nomes de professores vendidos como um licenciamento, tipo o LineSkin da Teresa Scardua, ou o Protocoll da Valeria Dal Coll.
Alguns destes kits sequer apresentam os detalhamentos de todos os ativos e concentrações! Se o profissoinal quiser usar, tem que ter feito o curso do professor e só pode pedir para as farmácias “licenciadas”, sem personalizar nada na verdade.
São medicamentos vendido sem a informação mais básica sobre o que se está comprando!
Porque? Justamente porque se fossemos pegar os mesmos componentes com concentrações idênticas para solicitar a manipulação por outras empresas sem a “marca” do professor, os valores seriam bem mais baixos. Mas ao atrelar o nome do professor a um medicamento, ele custa 2 ou 3 vezes o valor justo que deveria ser cobrado da fórmula manipulada. Fora que é proibido a venda casada, do tipo “só compra o medicamento quem fez o curso” (este assunto vai ser motivo de outro artigo que está no forno).
E paradoxalmente, pode acontecer o inverso em produtos que são mais próximos das “commodities” estéticas.
Um exemplo clássico: o NCTF 135HA, do laboratório francês Filorga (hoje Fillmed). Trata-se de uma mescla para skinbooster mundialmente consagrada, com mais de 50 ativos (vitaminas, aminoácidos e minerais), validada por anos e anos de estudos e que é fabricado com rigor industrial. É um produto caro, mas previsível.
O que o mercado magistral fez? Criou o seu próprio “135HA” — uma cópia com os “mesmos” 50 ativos que é vendido por metade do preço.
Isso passa longe, bem longe da personalização: é a fabricação de uma alternativa genérica de baixo custo, fugindo dos impostos e das exigências de registro que o laboratório francês teve que cumprir.
Nada contra oferecer alternativas, desde que elas não usem o manto da “manipulação magistral” para esconder uma produção em série sem o devido rigor industrial, ou usar o mesmo manto para querer diferenciar um produto sequer oferecendo as informações principais do que tem nele…
E a malandragem é constante e recorrente em algumas empresas…
Impossível andar em linha reta.
A prova de que o setor vive de “driblar” a norma basta ver a reação das farmácias às proibições da ANVISA.
Explico: em 17 de novembro de 2023, com a publicação da Resolução-RE nº 4.424, a ANVISA, esta proibiu terminantemente a manipulação, fabricação e comercialização de dispositivos médicos em farmácias magistrais. Isso atingiu em cheio as substâncias mais lucrativas do mercado da estética: Ácido Hialurônico reticulado, a Hidroxiapatita de Cálcio e o Ácido Poli-L-Láctico (PLLA). Poucos meses antes desta resolução, ela já tinha notificado alguns laboratórios e foi um barata-voa na época!
O fundamento técnico da Agência foi a indicação, absolutamente correta, de que tais substâncias não são medicamentos passíveis de personalização, mas sim "implantes intradérmicos" classificados como produtos de alto risco (Classe III ou IV), de modo que exigem processos de fabricação e controle de qualidade industriais que o ambiente magistral não consegue (ou não quer) replicar.
Até aí, tudo bem.
Mas a malandragem veio rápidamente: em sua resolução a ANVISA NOMEOU as substâncias de forma bem específica, não foi colocado de forma genérica que poderia evitar o surgimento de brechas legais: proibiu terminantemente a manipulação de preenchedores e bioestimuladores de Hidroxiapatita de Cálcio e outras duas substâncias.
Daí, malandramente, uma das farmacias mais conhecidas por quem atua na área, a Biometil (CNPJ: 07.783.875/0001-56), ao ver o cerco fechar contra a Hidroxiapatita, passaram a comercializar e manipular o Beta Fosfato tricálcico (β-TCP) com uma estratégia de marketing no mínimo polêmica: uma alternativa “ainda melhor” que a Hidroxiapatita.

Onde está o problema? O Beta Tricalciofosfato, assim como sua prima proibida, é uma cerâmica bioativa utilizada como substituto ósseo e bioestimulador.

Ao manipulá-lo, ainda mais numa concentração de 32,5%, as farmácias continuam a fabricar, na prática, um implante dérmico na forma de um bioestimulador mal e porcamente disfarçado, ignorando o “espírito” da proibição da ANVISA que visa impedir que farmácias magistrais produzam dispositivos médicos implantáveis.
E nem é um bom material para isso, explico isso neste video, já com uns 2 anos de publicação:
Esta é a prova mais cabal de que, para essas empresas, a regulamentação é apenas um obstáculo a ser contornado por uma nova nomenclatura química, mantendo o paciente como cobaia de uma indústria que se recusa a seguir as regras do jogo industrial.
Pra finalizar
A recuperação do setor de injetáveis não virá de novas moléculas ou “super-ativos”, mas da coragem de assumir que: ou se é Magistral (individualizado, lento e caro) ou se é Indústria (escala, registro e farmacovigilância).
O que não podemos aceitar é que a saúde estética continue sendo um terreno de ninguém, onde o lucro da escala industrial se esconde atrás do avental de mestre de uma farmácia de manipulação, afinal, na estética, a beleza nunca deve vir antes da segurança.



