Nos últimos tempos, uma dúvida tem se tornado recorrente nos consultórios e fóruns de Harmonização Orofacial (HOF): o uso de biocerâmicas (comumente utilizadas para enxertia óssea) como substitutas aos bioestimuladores de colágeno tradicionais.
A premissa parece lógica: se a composição química é semelhante, o resultado não deveria ser o mesmo? Precisamos aprofundar a análise na ciência dos biomateriais, comparando a morfologia, a composição e a interação tecidual entre os produtos dedicados à estética e os materiais de enxertia adaptados.
O Que Têm em Comum?
Primeiramente, é necessário estabelecer como ocorre o estímulo de colágeno. Atualmente, trabalhamos com duas categorias principais:
Polímeros: Como o Ácido Poli-L-Lático (PLLA) e a Policaprolactona (PCL), que sofrem hidrólise.
Minerais (Biocerâmicas): Sendo a Hidroxiapatita de Cálcio (CaHA) a principal substância.
Independentemente da marca, quando o bioestimulador é injetada no tecido, ocorre uma reação de corpo estranho controlada. O organismo envia macrófagos (que se fundem em células gigantes) para tentar fagocitar o material. Como não conseguem degradá-lo imediatamente, ocorre um encapsulamento das partículas, induzindo os fibroblastos a produzirem colágeno ao redor daquele “corpo estranho”.
Portanto, quimicamente, tanto o bioestimulador estético quanto o material de enxerto ósseo (baseado em CaHA) são capazes de induzir colágeno. No entanto, a química é apenas uma parte da equação.
Esferas vs. Grânulos Irregulares
A principal diferença entre um produto como o Radiesse (desenhado para a pele) e uma biocerâmica de enxerto ósseo reside na microscopia do material.
Bioestimuladores Estéticos
Possuem partículas de formato esférico e regular.
Vantagem: A superfície lisa agride menos o tecido, gerando uma inflamação subclínica controlada e sustentada.
Durabilidade: A degradação é lenta, permitindo que o material permaneça no tecido por cerca de 8 a 10 meses, com o colágeno formado perdurando por mais de um ano.
Biocerâmicas de Enxertia
Apresentam-se como grânulos irregulares e porosos.
Interação: A irregularidade aumenta a área de superfície, o que facilita a ação enzimática e celular para a degradação.
Consequência: O corpo “consome” esse material mais rapidamente. Além disso, a forma irregular aumenta teoricamente o risco de formação de nódulos se a técnica de diluição e aplicação não for precisa.
O Fator Beta-Tricálcio-Fosfato
Um ponto crítico é que muitas biocerâmicas de enxertia não são compostas 100% por hidroxiapatita de cálcio. Frequentemente, elas são mescladas com Beta-Tricálcio-Fosfato, ou β-TCP que é adicionado aos enxertos ósseos propositalmente por ter uma reabsorção muito rápida (2 a 3 meses). Isso é ideal para a regeneração óssea, onde o material precisa desaparecer na mesma velocidade em que o osso novo é formado (turnover ósseo).
Porém, ao transplantar esse conceito para a derme:
A presença de
β-TCP acelera a degradação do bioestimulador adaptado.A longevidade do estímulo cai para cerca de 6 a 8 meses, contra os 18 a 24 meses de efeito clínico dos bioestimuladores dedicados.
O uso off-label de biocerâmicas de enxertia diluídas em soro, ácido hialurônico ou outros vetores (como silício orgânico) funciona? Sim, induz colágeno.
Contudo, devemos ponderar:
Custo-Benefício: O custo do material de enxertia é significativamente menor (cerca de 3 a 4 vezes mais barato que um bioestimulador de marca). Isso pode viabilizar tratamentos para pacientes com menor poder aquisitivo.
Recorrência: Devido à degradação acelerada (pela irregularidade da partícula e presença de
β-TCP), o paciente precisará de sessões mais frequentes (a cada 6 ou 8 meses) para manter o mesmo resultado.Segurança: Há um risco ligeiramente maior de intercorrências, como nódulos, devido à falta de padronização granulométrica para uso em tecidos moles. Além disso, faltam estudos multicêntricos e literatura robusta que validem protocolos específicos para essa adaptação, ao contrário das marcas consagradas que possuem vasta base científica.
O uso de biocerâmicas de enxertia na HOF não é uma “reinvenção da roda” nem um milagre. É uma adaptação de materiais existentes. Embora seja uma alternativa viável quimicamente e economicamente atraente, o profissional deve estar ciente de que não está entregando a mesma performance de um produto desenhado especificamente para a derme.











