TOXINA COM RESULTADO TOTAL EM 24 HORAS? 🚀 PERGUNTE-ME COMO!
Logo logo teremos a Toxina Botulinica tipo E no mercado, e isso pode mudar tudo.
Sim, o título é 100% verdadeiro. Imagine uma toxina que tem seu pico de ação em somente 1 dia. Nada de esperar de 7 a 14 dias para ter o efeito. Aplicou hoje, amanhã tá 100%. Sim isso existe e logo deverá estar no mercado.
O único problema é que o efeito deste medicamento vai durar só umas 3 semanas.
Pera, pera!
Não pare sua leitura aqui, você vai aprender muita coisa a partir de agora. Eu entendo que parece, à primeira vista, o pior negócio da história da estética.
Imagine a cena: você vai ao consultório, enfrenta o desconforto das agulhas, abre a carteira para pagar um valor considerável e ouve do profissional uma promessa (ou uma ameaça…): “Fique tranquilo, daqui a três semanas o efeito terá desaparecido completamente”.
A ideia de uma toxina botulínica cujo efeito desaparece tão rápido quanto a paciência de um Pinscher soa como, no mínimo, como uma piada de mau gosto. Passamos as últimas três décadas rezando para que o nosso Botox durasse mais, e não menos.
Mas pensar assim é afunilar demais todas as possibilidades deste novo medicamento. Vamos ampliar esse pensamento no decorrer do artigo. Mas entenda que essa nova era com a Toxina Botulínica Tipo E, mais do que considerar somente um “test-drive” do uso da toxina botulínica regular, temos que encarar como uma ferramenta de precisão que promete revolucionar o mercado justamente por sua fugacidade, e você nem sabia que precisava.
Mas… Toxina Botulínica tem “tipo”? Como assim?
Tem, e são vários sorotipos. Todas produzidas pela “mesma” bactéria Clostridium botulinum.
Isso porque embora utilizemos o termo geral Clostridium botulinum, ele na verdade descreve um grupo variado de bactérias anaeróbias capazes de produzir as nove exotoxinas antigenicamente distintas (A, B, C1, C2, D, E, F, G e H) e todos os os sorotipos interferem na transmissão neural bloqueando a liberação de acetilcolina.
Mas não dá pra falar que é tudo igual porque cada uma impede a liberação de acetilcolina de uma forma quando estão na terminação nervosa, mas a ação final é essencialmente a mesma.
E mesma cepa bacteriana pode produzir mais do que um sorotipo de toxina.
A maioria das cepas é monovalente (produz apenas um tipo), mas graças a plasticidade genética existem cepas bivalentes que secretam dois tipos simultaneamente. Tem até outras especies de clostridium podem produzir a toxina botulinica. O Clostridium butyricum, por exemplo, tem o gene necessário para produzir a toxina tipo E.
E é curioso entender porque isso acontece. É como se os microrganismos seguissem uma regra “geopolítica” ditada pela química do solo. O Sorotipo A, conhecido pela alta letalidade e longa duração, domina regiões de solos neutros a alcalinos e com pouca matéria orgânica, sendo prevalente no Oeste dos Estados Unidos, na China e em solos tropicais como os do Brasil.
O Sorotipo B prospera em solos ricos em matéria orgânica, estabelecendo sua hegemonia na Europa Central e no Leste dos Estados Unidos, o que explica historicamente a associação deste tipo com surtos em embutidos e carnes processadas no continente europeu.
O Sorotipo E, foco das novas pesquisas farmacêuticas que estamos apresentando aqui, é produzida por uma bactéria aquática e de clima frio. Ela se concentra em sedimentos marinhos e lacustres do Hemisfério Norte, dominando regiões como Escandinávia, Alasca, Canadá, Japão e a área dos Grandes Lagos.
Vale dar um spoiler: A molécula do tipo E evoluiu para funcionar em temperaturas mais baixas e em hospedeiros diferentes (peixes/aves aquáticas), desenvolvendo uma estrutura proteica que, ao ser aplicada em humanos, resulta em uma ligação instável e de rápida degradação, isso explica, em parte, porque o efeito desta toxina desaparece em 3 semanas.
Bem legal, né? Mas estou me adiantando. Continue sua leitura.
Hoje, utilizamos na medicina os tipos A e B, mas em breve poderemos contar com a Toxina Botulinica tipo E, como veremos a seguir. Vale lembrar: no Brasil todas as marcas com registro na ANVISA utilizam o mesmo sorotipo A.
Mas quem teve a brilhante idéia de utilizar o tipo E para um medicamento?
BONTI Inc.
Durante décadas, a ciência já conhecia os vários sorotipos de toxina botulínica, mas a indústria focou quase exclusivamente no Tipo A (e secundariamente no B) porque o objetivo clínico padrão sempre foi a durabilidade — ninguém queria um tratamento para rugas ou espasticidade que precisasse ser repetido todo mês.
Ou seja, até então, o sorotipo Tipo E, com seu efeito curto, era visto como clinicamente irrelevante.
Mas os fundadores da BONTI Inc. uma empresa de biotecnologia fundada em 2015, enxergou justamente nesta característica uma oportunidade. Ao perceber que havia uma demanda reprimida de pacientes que não queriam o compromisso de longo prazo (ok, nem tão longo assim) do Botox tradicional.
Eles apostaram que o perfil “rápido e curto” do Tipo E não era uma falha, mas uma feature exclusiva. com isso a Bonti desenvolveu uma “molécula candidata” EB-001 (que seria a molécula com maior potencial para se tornar um novo fármaco ou princípio ativo).
Os ensaios clínicos iniciais foram interessantíssimos: enquanto a Toxina A levava dias para agir, o EB-001 paralisava o músculo em 24 horas. E o efeito desaparecia completamente entre 2 a 4 semanas, validando a segurança para usos temporários.
Mas pra que serviria esse medicamento? Já chegaremos lá.
Antes, uma informação relevante. A Allergan (dona do Botox), percebendo que a Bonti havia criado um produto que poderia tanto canibalizar parte do seu mercado quanto expandi-lo não perdeu tempo: em setembro de 2018 anunciou a aquisição da Bonti por um pagamento inicial de US$ 195 milhões e mais outros penduricalhos.
Não estranho muito a aquisição, a Allergan costuma comprar muitas empresas para fechar o cerco em seu campo de atuação, buscando criar um ecossistema completo na estética. Veja o quadro:
A ALLERGAN VAI AO MERCADO
Em outubro de 2015 com a compra da Kythera Biopharmaceuticals (US$ 2,1 bilhões), que trouxe o Kybella® para tratar a gordura da papada, resolvendo a única área facial que o Botox e o Juvederm não cobriam.
Para expandir seu domínio além da face e capturar o lucrativo mercado de contorno corporal, a Allergan realizou seu movimento mais ousado em abril de 2017 ao adquirir a ZELTIQ Aesthetics por US$ 2,48 bilhões, incorporando o CoolSculpting® e garantindo a liderança mundial na redução de gordura sem cirurgia.
No ano seguinte, visando aprimorar a qualidade tecidual, a empresa comprou em fevereiro de 2018 a Elastagen, detentora de uma tecnologia de tropoelastina sintética para restaurar a elasticidade da pele.
Em dezembro de 2016, a empresa adquiriu a LifeCell por US$ 2,9 bilhões, garantindo o Alloderm® (matriz dérmica essencial para reconstrução mamária), e reforçou esse nicho em junho de 2017 com a compra da Keller Medical e seu dispositivo Keller Funnel® para inserção de implantes.
Com essas movimentações, a Allergan garantiu que, seja em um procedimento minimamente invasivo de 15 minutos ou em uma cirurgia reconstrutiva complexa, suas tecnologias estivessem presentes em todas as etapas da jornada do paciente.A Corrida da Ipsen e o rBoNT-E
Enquanto a Allergan avança para a fase comercial com a compra da Bonti, a francesa Ipsen (dona do Dysport®) está desenvolvendo em paralelo sua própria versão da toxina tipo E. E diria eu de uma forma muito mais interessante, focada em engenharia genética avançada.
O diferencial é fazer a produção da molécula via DNA recombinante (rDNA). Diferente da extração convencional, que exigiria o cultivo de Clostridium e bastante complexos processos de purificação para remover proteínas bacterianas desnecessárias e com maior potencial alergênico, a toxina recombinante é produzida por outras bactérias modificadas geneticamente e pode ser purificada de forma mais simples e efetiva, por exemplo.
Entendendo isso, o nome provisório do composto da Ipsen é rBoNT-E (recombinant Botulinum Neurotoxin serotype E)
A lógica é similar à evolução da insulina humana biossintética: assim como ela eliminou a imunogenicidade das insulinas animais, a toxina recombinante pode oferecer uma pureza molecular superior. Além disso, a bioengenharia permite a customização da sequência de aminoácidos, facilitando a criação de variantes com farmacocinética otimizada (início mais rápido ou duração controlada).
Tanto isso é percebido nos primeiros resultados, de pesquisa FASE 1, publicado por volta de 2019/2020. Os dados confirmaram o perfil único da variante E: O início de ação foi observado entre 1 e 2 dias (contra 3-7 dias da toxina A) e efeito durou entre 2 a 7 semanas, desaparecendo completamente após esse período.
Um cheirinho diferente da toxina da Bonti Inc. mas com uma tecnologia ainda não aplicada para os produtos regulamentados.
Um detalhe importante, a Ipsen também está buscando uma toxina botulínica que tem o efeito OPOSTO da toxina tipo E, tentanto AMPLIAR o tempo de efeito. Nesse caso o nome da molécula é o IPN10200. Mas lembre-se: esta toxina NÃO é a toxina tipo E, ainda que tenham aparecido pesquisas mais recentes sobre esta molécula.
Tá bom, mas o que muda entre as ações das duas? Hora de explicar o
Diferenças Principais da Toxina Botulínica Tipo E vs. Tipo A
Pense que o objetivo aqui não é ter o maior tempo de duração. O objetivo real é o oposto, um efeito breve para outras aplicações clínicas.
Mas como isso é possivel? Por isso temos que iniciar falando das diferenças entre os mecanismos de ação das duas variantes.
Todos os sorotipos de toxina botulínica compartilham a mesma estrutura básica (uma cadeia pesada de 100 kDa ligada a uma cadeia leve de 50 kDa) e o mesmo objetivo final (bloqueio da liberação de acetilcolina).
Para que ocorra a contração muscular, as vesículas contendo acetilcolina precisam se fundir à membrana do neurônio motor e serem secretadas na junção neuro-muscular, onde vão “avisar” as fibras musculares para que contraiam. Entenda que este processo é mediado pelo complexo SNARE, um grupo de proteinas que dão “match” na hora de permitir a fusão da vesícula sináptica (que tem acetilcolina) com a membrana celular.
Tanto a BoNT/A quanto a BoNT/E são endopeptidases que atacam especificamente uma proteína IMPORTANTÍSSIMA desse complexo: a SNAP-25 (Synaptosomal-Associated Protein of 25kDa).

Pronto, acaba ai a semelhança.
A rapidez de ação da BoNT/E, que tem 100% de seu efeito já nas primeiras 24 horas, deve-se à cinética de translocação da neurotoxina.
Dá pra falar em português? Dá: Cinética de translocação é o termo técnico que define a velocidade com que a parte ativa da toxina (a Cadeia Leve) consegue escapar de dentro da vesícula de transporte e entrar no citoplasma da célula nervosa para começar a funcionar. Nesse caso, a BoNT/E apresenta uma configuração “fechada”, mais compacta, e que, grosseiramente, permite que a toxina atinja seu alvo molecular e inicie o bloqueio da liberação de acetilcolina quase imediatamente após a entrada na célula
Ou seja, o efeito é rápido porque a ação da toxina é facilitada pelo seu formato.
Além disso, mecanismo molecular de clivagem e a localização subcelular desempenham papéis cruciais. A BoNT/E quebra a proteína SNAP-25 em um local que remove um fragmento de 26 aminoácidos, enquanto a BoNT/A remove apenas 9 aminoácidos.
Mas aqui tem um paradoxo: um “corte maior” (26 aminoácidos vs. 9), a BoNT/E causaria um dano mais duradouro e não mais breve, concorda? Então… é que tem outros fatores agindo no tempo de duração do efeito, de poucas semanas
O ponto é que a célula nervosa consegue “limpar” e destruir essa toxina muito mais depressa do que faz com a toxina do Tipo A (como o Botox).
A Toxina Botulínica Tipo A age como um hóspede indesejado que se prende às paredes internas da célula e usa proteínas “guarda-costas” para se esconder, demorando pro neurônio conseguir se livrar da toxina. Então a função motora nesses casos só acontece depois que o organismo vai pro plano B: cria um novo brotamento axonal enquanto tenta limpar a célula da toxina tipo A. E isso demora uns meses pra acontecer.
Já na BoNT/E, a cadeia leve fica lá, soltinhas no citosol (o líquido interno da célula), e totalmente desprotegido. Por estar exposta, ela é rapidamente identificado e eliminado pelo sistema de reciclagem natural da célula (o proteassoma), fazendo com que pare de funcionar em pouco tempo.
Ou seja, enquanto a toxina tipo A induz o nervo a fazer uma nova ternimação nervosa porque fica escondida, a toxina tipo E consegue ser eliminada mais rápido e o reparo da SNAP-25 pode ser feita de forma mais rápida, daí o efeito durar bem menos.
As pesquisas a este respeito mostram que a paralisia muscular dura apenas enquanto a toxina está fisicamente presente; assim que a “ferramenta de corte” da toxina é degradada, o nervo conserta a conexão e o músculo volta a se mover.
Uso estético da Toxina tipo E é só a ponta do iceberg
É inevitável falar em toxina botulínica e não associar a tratamentos estéticos. Mas ao mesmo tempo é uma redução de todas as possibilidades terapêuticas deste medicamento.

As pesquisas indicam que o verdadeiro potencial deste medicamento pode estar em nichos que nem imaginamos:
Manejo de Dor Aguda
Até hoje, o tratamento da dor musculoesquelética aguda (como um torcicolo severo, um espasmo pós-cirúrgico ou uma lesão esportiva) dependia de duas classes de medicamentos: relaxantes musculares sistêmicos (que causam sonolência e lentidão cognitiva) e opioides (com alto risco de dependência). A Toxina Botulínica Tipo A nunca foi uma opção viável para esses casos agudos por dois motivos simples: demorava dias para aliviar a dor e deixava o músculo fraco por meses, muito depois de a lesão já ter sido curada.
A Toxina Tipo E (BoNT/E) surge como a primeira alternativa local e potente para preencher essa lacuna, atuando através de uma dupla via de analgesia: a toxina inibe a liberação de mediadores inflamatórios e de dor nas terminações nervosas, como a Substância P, o CGRP (Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina) e o Glutamato. Este processo está bem estabelecido no sorotipo A, mas ainda precisa ser melhor esclarecido no sorotipo E mas tem pesquisas já indicando que essa ação acontece.
A idéia é que, por estar 100% funcional em questão de horas, a BoNT/E “poderia desligar” o sinal químico da dor enviado ao cérebro antes que o ciclo de dor crônica (sensibilização central) se instale.
Espasmo Doloroso
Na cirurgia de implante mamário (mamoplastia) e reconstrução pós-mastectomia., quando o implante é colocado sob o músculo peitoral, o músculo sofre um estiramento violento e entra em espasmo defensivo. Isso gera uma dor extremamente desconfortável em alguns pacientes nos primeiros dias.
Se a BoNT/E for injetada no intraoperatório, a toxina relaxa o músculo peitoral nas primeiras 24 horas. Isso reduz drasticamente a dor na fase crítica, e o músculo volta a funcionar normalmente em 3 a 4 semanas, permitindo que a paciente retome atividades físicas e vida normal, sem a fraqueza prolongada de 4 a 6 meses que a toxina tradicional causaria.
Ortopedia e Medicina Esportiva
Para atletas ou pacientes com lesões agudas (como distensões lombares ou cervicais), o relaxamento forçado do músculo lesionado impede que o paciente contraia a área reflexamente, o que poderia piorar a lesão (como se fosse um efeito de “imobilização química”). Com a dor controlada rapidamente sem sedação, o paciente consegue iniciar a fisioterapia mais cedo. Como o efeito da toxina passa rápido, o fortalecimento muscular não é prejudicado a longo prazo.
Imagine você o impacto que teria na redução de uso de opióides? Você deve saber sobre o que está acontecendo em vários paises, sendo os Estados Unidos um dos mais afetados, com uma crise de dependência de analgésicos fortes.
Pacientes tratados com toxina botulínica no local da cirurgia ou trauma requerem significativamente menos morfina ou oxicodona no pós-operatório. Ao tratar a dor na fonte (o músculo e o nervo periférico), evita-se dopar o sistema nervoso central do paciente.
Cicatrização Perfeita
Uma das aplicações mais promissora fora da estética seja na cirurgia plástica reparadora e ortopédica. Quando um cirurgião sutura uma ferida, a contração muscular natural ao redor da incisão cria tensão. Essa tensão pode estimular a formação de cicatriz e piora o resultado estético (formação de queloides ou cicatrizes hipertróficas, por exemplo).
A aplicação da toxina tipo E no intraoperatório paralisaria os músculos ao redor da ferida apenas durante a fase crítica de cicatrização (2 a 4 semanas). Com isso, uma cicatrização sem tensão pode resultar em cicatrizes consideravelmente menores, com a retomada dos os movimentos do local em menos de um mês.
“Block Test”
Antes de realizar cirurgias irreversíveis de liberação muscular em pacientes com paralisia cerebral ou distonia, os médicos precisam saber se aquele músculo é o verdadeiro causador do problema.
A BoNT/E permite fazer um “teste terapêutico”. O médico aplica a toxina; se o paciente melhorar, a cirurgia é indicada. Se o paciente piorar ou não gostar da sensação, o efeito passa em semanas. Com a Toxina A, um erro de diagnóstico condenaria o paciente a meses de efeitos adversos.
Coloproctologia
A fissura anal é uma ferida dolorosa que não cicatriza porque o esfíncter anal fica contraído (espasmo), impedindo a irrigação sanguínea. O tratamento é “relaxar” esse músculo. Usa-se Botox hoje, mas existe um risco: se relaxar demais, o paciente pode sofrer de incontinência fecal. Com a Toxina A, essa incontinência duraria 4 meses — um desastre para a qualidade de vida. Por medo disso, muitos médicos e pacientes evitam o tratamento.
Com a BoNT/E , pode-se oferecer o relaxamento necessário para a fissura cicatrizar (2 a 4 semanas), que é o tempo biológico exato para a cura da mucosa. Se houver algum grau de incontinência como efeito colateral, ela durará apenas alguns dias ou semanas, tornando o risco muito mais aceitável para o paciente.
Odontologia e DTM (Disfunção Temporomandibular)
Pacientes com bruxismo ou DTM muitas vezes têm crises agudas de travamento da mandíbula (trismo) ou mesmo dores derivadas de tensão muscular nos musculos da mastigação (masseter, temporal, por exemplo. A BoNT/E permite tratar a crise aguda de dor orofacial, “resetando” o tônus muscular e permitindo que o dentista instale placas ou faça ajustes oclusais, sem condenar o paciente a meses de mastigação enfraquecida ou alterações estéticas no sorriso indesejadas.
Na Estética, para medrosos
Obviamente, a BoNT/E não visa substituir o Botox tradicional, mas capturar o paciente que não usa toxina hoje, seja porque medo de ficar com a “cara congelada” ou que não sabe como seria o resultado final. É a segurança de saber que o efeito é reversível em curto prazo, quase que um “Efeito Cinderela” de poucas semanas
Até mesmo vai ter um apelo para tratamentos que precisam de resultados rápidos, feitos no dia anterior a eventos, casamentos ou premiações, onde o paciente precisa de resultado imediato, algo impossível com as toxinas atuais.
Quando a Toxina Botulinica tipo E entra no mercado?
Esta é a resposta que você deve estar esperando, mas pode colocar as barbas de molho que não vai ser tão rápido. Vamos entender em que pé estão as pesquisas na área:
A TrenibotulinumtoxinE (nome oficial da molécula de toxina botulinica tipo E da Allergan), já concluiu as fases críticas de pesquisa clínica (Fase III) e a AbbVie anunciou a submissão do pedido de Licença Biológica (BLA) ao FDA dos Estados Unidos em 24 de abril de 2025, buscando a aprovação para o tratamento de linhas glabelares moderadas a severas (sempre começa por esta região por ser uma área de tratamento previsível)
Já a Ipsen continua o desenvolvimento de sua versão recombinante (rBoNT-E), a qual demonstrou em estudos de Fase 1 e 2 um perfil farmacodinâmico semelhante de início rápido e curta duração, mas em estágios mais iniciais em comparação à Allergan, ainda de Fase 2 listados para espasticidade e linhas faciais, ou seja, sem resultados ainda.
Para entender o que são estas fases de pesquisa, você pode ler um artigo que escrevi sobre este assunto aqui:
Desenvolvimento de medicamentos. Ou "olha o trampo que dá pra fazer do jeito certo!"
A aprovação de um novo medicamento para uso humano envolve um processo rigoroso de testes e pesquisas para garantir sua segurança e eficácia.
A base científica da Allergan foram dois estudos de Fase 3, M21-500 e M21-508, abrangendo dados de mais de 2.100 pacientes. O estudo M21-500, desenhado como um ensaio multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, avaliou a eficácia e segurança do TrenibotE em adultos com linhas glabelares. Os resultados confirmaram o perfil clínico o medicamento e demonstrou um início de ação ultrarrápido, com efeitos observáveis tão cedo quanto 8 horas após a injeção e a duração do efeito estético foi confirmada na faixa de duas a três semanas, validando a proposta de um tratamento ultra-rapido, com um perfil de segurança comparável ao do placebo e sem novos sinais de risco além das toxinas já disponíveis.
Considerando os ciclos padrão de revisão do FDA, que geralmente levam cerca de 10 a 12 meses para novos produtos biológicos a partir do pedido de Licença Biológica (BLA), a previsão é que a aprovação final e a entrada no mercado norte-americano ocorram no primeiro semestre de 2026. Se aprovado, o TrenibotE será a primeira neurotoxina do sorotipo E disponível para pacientes, inaugurando uma nova categoria na medicina onde a flexibilidade temporal e a rapidez de resultados nos relaxamentos musculares seletivos se tornam opções terapêuticas reais.
E, se houver interesse da empresa, podemos esperar o registro na ANVISA possivelmente entre 18 e 24 meses após a aprovação do FDA, ou seja, na melhor das hipóteses, é um medicamento que poderemos conhecer, com sorte, em 2028.
E aí? O que acha? Vai ter apelo no seu publico? Nos falamos em 2 anos.
Referências
Rossetto O, Pirazzini M, Montecucco C. Botulinum neurotoxins: genetic, structural and mechanistic insights. Nat Rev Microbiol. 2014 Aug;12(8):535-49.
Hauschild AHW. Epidemiology of human foodborne botulism. In: Hauschild AHW, Dodds KL, editors. Clostridium botulinum: Ecology and Control in Foods. New York: Marcel Dekker; 1989. p. 68–104.
Sobel J. Botulism. Clin Infect Dis. 2005 Oct 15;41(8):1167–1173.
Allergan plc. Allergan Acquires Bonti, Adding Novel, Fast-Acting Neurotoxin Programs to Medical Aesthetics Pipeline [Press Release]. Dublin: Allergan; 2018 Sep 14.
Yoelin SG, Dhawan SS, Vitarella D, Ahmad W, Hasan F, Abushakra S. Safety and Efficacy of EB-001, a Novel Type E Botulinum Toxin, in Subjects with Glabellar Frown Lines: Results of a Phase 2, Randomized, Placebo-Controlled, Ascending-Dose Study. Plast Reconstr Surg. 2018 Dec;142(6):847e-855e.
Picaut P, Gouraud A, Lapeyre-Mestre M, Pons L. Safety and pharmacodynamics of a novel recombinant botulinum toxin E (rBoNT-E): Results of a Phase 1 study in healthy male subjects compared with abobotulinumtoxinA. J Neurol Sci. 2019 Oct;405(Suppl):104-105. Abstract no. 434.
Fonfria E, Mahrhold S, Nrezjan R, et al. Parallel actions of Botulinum Neurotoxins Type A and E in the inhibition of neuropeptide release from primary sensory neurons. Pain. 2019;160(6):1246-56.
Pons L, Guerin-Phais T, Le Boedec F, Martin V, Cavelier P. Intramuscular Botulinum Neurotoxin Serotypes E and A Elicit Distinct Effects on SNAP25 Protein Fragments, Muscular Histology, Spread and Neuronal Transport. Toxins (Basel). 2024 May;16(5):225.
Alam M, Vitarella D, Ahmad W, Abushakra S, Mao C, Brin MF. Botulinum toxin type E associated with reduced itch and pain during wound healing and acute scar formation following excision and linear repair on the forehead: A randomized controlled trial. J Am Acad Dermatol. 2023 Dec;89(6):1317-1319.
AbbVie Inc. AbbVie Announces Positive Topline Results from Phase 3 Studies of TrenibotulinumtoxinE for Glabellar Lines [Press Release]. North Chicago: AbbVie News Center; 2023.
Nicholson GS, Canty D, Southern A, Whelan K, Brideau-Andersen AD, Broide RS. Preclinical Evaluation of Botulinum Toxin Type E (TrenibotulinumtoxinE) Using the Mouse Digit Abduction Score (DAS) Assay. Toxins (Basel). 2024 Feb;16(2):107.




