Uma constelação de Criadores
Ou como a Falácia da Distinção sem Diferença é utilizada pra enganar o aluno
Sala cheia, talvez umas 600, 700 pessoas sentadas esperando a entrada de uma professora. Som alto, luzes, brilhos e lá vem a professora, entrando no palco como entravam os jurados do programa Silvio Santos.
O assunto da aula? Pouco importava, importava que ela estava lá pronta para contar “todos os segredos” da técnica de fios de sustentação (Ok, o assunto eram fios de sustentação…) que ela “criou”.
Todos… os… segredos. Uau. Vai vir coisa boa ai, correto?
Não. Veio uma apresentação morna mas cheio de ego, meio apresentação de catálogo de uso de fios com várias fotos de antes e depois que vieram direto do Instagram da diva. Lá pelas tantas, meio no final da aula, depois de descrever uma abordagem “sensacional” em que ela insere a pontinha do fio no tecido para aumentar a formação de colágeno, ela conta de onde “aprendeu”:
Vocês acreditam que essa técnica de colocar o resto do fio para estimular colágeno eu criei do nada, eu imaginei quando acordei de repente de uma viagem que estava fazendo pra Dubai?
Não foi a frase exata, mas o contexto foi esse: na viagem pra Dubai ela acorda e tem uma serendipidade: ao invés de cortar a ponta do fio, pretende colocar dentro no tecido pra formar mais colágeno.
Será que a tal professora, para estudar, nunca, jamais leu nenhum artigo do George e do Constantin Sulamanidze que descreveram EXATAMENTE essa abordagem há mais de 20 (VINTE) anos atrás? Dois caras que são referencia em fios de sustentação. Justamente o tema de escolha para ela descrever as técnicas dela.
Corta a cena. Vamos pra outra:
Aula online de um curso sobre planejamento facial. Umas boas dezenas (ou centenas, não lembro) e a professora lá ensinando como fazer planejamento facial, e marcar os pontos de referência.
Um dia inteiro, e a professora junto com a chefe, mostrando as inovações da técnica de análise.
(sim, quem dava a aula era a professora mas a chefa dela que abençoava as coisas. Essa chefa faz muito disso, com vários professores, mas não é o mérito agora)
Daí a inovação da técnica era basicamente uma simplificação da análise facial que a Ortodontia faz desde a década de 50. E a mudança de nomenclatura sem nenhuma, zero, necessidades. Como assim?
Explico: o ponto Gônio, que identifica o ângulo da mandíbula, passou a ser renomeado de ponto A, de “ângulo da mandíbula”
O ponto subnasal virou o ponto N, de “nariz”. O ponto Zígio que fica a parte mais saliente da face lateral do osso zigomático virou o ponto M.
M de “maça do rosto”. Você não leu errado: “M de maça do rosto”, a professora que falou.
Tem outras pérolas também: C de Cabelo, S de sobrancelha… deu pra entender a vibe:
“Ao invés de utilizar pontos de análise cefalométrica que a literatura utiliza há décadas, vou dar um nome diferente e falar que criei algo.”
Corta a cena de novo.
Instagram. Detesto Instagram mas tenho que eventualmente usar pra divulgar serviços, afinal esse aplicativo virou essencialmente um catálogo, né?
Acesso lá e de primeira aparece uma postagem dizendo algo como: “A técnica que EU desenvolvi para tratamento de necrose foi publicada”.
Curioso que sou, vou lá no carrossel e vejo que a técnica que a profissional “desenvolveu” é exatamente a mesma que é descrita em literatura há pelo menos uns 10 anos em um bom apanhado de artigos e muitos muitos autores diferentes. Resumindo: zero novidades, zero criação.
Ahh, mas a sequência de tratamento foi diferente! EU criei esta nova sequência!!
Na escola, aprendemos na matemática básica que “a ordem dos fatores não altera o produto”. Quando adultos, e quando já esquecemos da matemática, passamos a falar que “a ordem dos tratores não altera o viaduto”… Ou seja, simplesmente mudar a ordem de um tratamento não faz de mim um criador. Até porque simplesmente mudar uma eventual sequencia de tratamento poderia trazer questionamentos do motivo, e isso, numa postagem de instagram, não vai acontecer…
Pior, ao comentar esse fato buscando a resposta a este questionamento, meu comentário foi apagado. É tipo uma discussão científica de uma via só. A “autoridade” fala e publica o que quer, e apaga o que não agrada.
Mas me expliquem, se puderem: porque passamos a ser cercados de pessoas regulares que têm um ego tão inflado, e conscientemente ou inconsientemente passamos a “oferecer” uma autoridade que eles não deveriam ter?
Desde a professora que não conhece a fundo nem o assunto que se dispõe a ensinar, até o museu de velhas novidades do manejo de necrose são dezenas de profissionais que não tem o mínimo de autoridade REAL e estão ensinando por ai.
Pior, pagando de “Steve Jobs da Harmonização Facial” , requentando técnicas estabelecidas por décadas, mas que, depois de maquiadas, passam a ser vendidas como uma “criação própria”.
Profissionais medianos, não excepcionais, mas que se acham a última bolacha do pacote. São dotados de tamanha autoconfiança, que conseguem espalhar abobrinhas ou requentar coisas criadas por outros e dando os louros para si.
Note que não se trata necessariamente de profissionais ruins; eles podem até oferecer um bom atendimento e entregar bons resultados aos pacientes. A questão é a conveniência: eles se valem da projeção nas redes sociais e de parcerias com a indústria farmacêutica para ganhar status de autoridade. Com essa visibilidade, o foco acaba se desviando do paciente para a monetização de soluções e 'criações' particulares. E dá-lhe cursos.
Se bem que, como contei no primeiro 'causo', a professora poderia ter estudado um pouco mais para não precisar recorrer a esse papo furado de 'iluminação nas alturas de Dubai'. Vou dar esse benefício da dúvida a ela; prefiro crer que faltou profundidade nos estudos do que sugerir simplesmente má-fé. Seria injusto assumir o pior sem provas.
Veja só, não há absolutamente nenhum problema em apresentar e ensinar uma técnica já consolidada em um curso, aula ou palestra. Pelo contrário, compartilhar metodologias comprovadas é o papel esperado de qualquer bom educador.
Mas obviamente muitas vezes esbarramos na mais pura desonestidade intelectual ao renomear um conhecimento de domínio público ou universal para embalá-lo como se fosse uma invenção genial de autoria própria.
O mercado da Harmonização Facial nos apresenta uma ótima oportunidade para entender essa prática: a partir do sucesso comercial de um método original, o MD Codes, uma legião de profissionais percebeu o filão financeiro de ter “uma técnica para chamar de sua”. Para não admitirem que estão apenas replicando a mesma técnica de injeção, doses e volumes por região, passaram a maquiar o protocolo básico com novas siglas. É assim que a área foi inundada por supostas ‘inovações’ todas renomeadas com "XXX” Codes.
Não vou usar MD, vou fazer o "Meu Nome”Codes.
Na prática, muda-se apenas o letreiro, registra-se uma marca e vende-se a ilusão da exclusividade a preços exorbitantes, comercializando um marketing predatório baseado em falsas autorias.
A maior prova dessa desonestidade é o prazo de validade dessas ‘criações’. Por serem pautadas exclusivamente no viés comercial, esses cursos aparecem, surfam no hype e logo somem. No ano seguinte, o mesmo criador simplesmente muda o nome do protocolo, lança um ‘novo’ curso revolucionário, angaria uma nova leva de profissionais desavisados e o ciclo recomeça.
Veja o contraste: o cirurgião plástico Maurício de Maio, criador do MD Codes, trabalha há mais de uma década com o mesmíssimo conceito. Ele foge do modismo justamente porque a sua técnica não é um “produto”; ela é uma técnica com base científica fundamentada e aprimorada de verdade. Em vez de inventar um nome novo a cada temporada apenas para vender novos cursos, ele lança publicações e atualizações técnicas a cada dois ou três anos. O método não virou 'versão 2.0', '3.0', nem nada disso. É o que no marketing é chamado de um produto evergreen: possui uma base tão sólida que é perene, mantendo-se sempre relevante.
Bem o oposto dos causos, né?
E como o tio Ben falou: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Hoje, ter um palco com luzes de programa de auditório, milhares de seguidores no Instagram e o título de 'embaixador' de uma marca confere a esses profissionais um poder imenso de influência.
A responsabilidade de quem assume o microfone deveria ser com a ciência, com a verdade e com a educação, e não com a inflação do próprio ego para vender o próximo curso. A estética e a harmonização não precisam de novos 'Steve Jobs' tendo epifanias em Dubai; precisam de profissionais que sentem a bunda na cadeira, leiam os artigos de quem veio antes e tenham a decência de dar os devidos créditos.
Até lá, cabe a nós separar quem faz ciência de quem faz apenas espetáculo.
Hasta.




