Na Harmonização Orofacial, uma das decisões mais críticas durante o planejamento é definir se o rosto do paciente necessita de projeção (volumização anterior) ou de lifting (reposicionamento tecidual). Erros nessa avaliação levam a resultados artificiais, como o aspecto de “bochechas excessivas” (pillow face), muito comum quando se tenta corrigir flacidez apenas com volume.
Para dominar essa distinção, é imprescindível compreender a anatomia dos ligamentos de retenção verdadeiros e a divisão da face em zonas móveis e fixas.
Anatomia Aplicada: A Face Móvel e a Face Fixa
O rosto não é uma estrutura uniforme; ele é segmentado por ligamentos e aderências que conectam o periósteo ou o SMAS (Sistema Musculoaponeurótico Superficial) à derme. Segundo estudos de anatomistas renomados como Sebastian Cotofana, existe uma linha vertical imaginária formada pela união de diversos ligamentos que divide a face em dois territórios distintos:
Face Lateral (Fixa): Localizada atrás da linha dos ligamentos. É uma área de estabilidade, ideal para ancoragem.
Face Medial (Móvel): Localizada à frente da linha dos ligamentos. É a área de mímica e deslocamento.
A Linha de Ligamentos
As principais estruturas que formam essa barreira de separação são as aderências e ligamentos:
Temporal;
Orbicular;
Zigomático;
Massetérico;
Mandibular.
Esta linha atua como um “muro”. Tudo o que está atrás dela (região lateral) oferece resistência e tração; tudo o que está à frente (região anterior) tende a sofrer maior ação da gravidade e da movimentação muscular.
O Conceito “Lateral First”
A compreensão dessa anatomia levou ao desenvolvimento de estratégias de tratamento que priorizam a região lateral. O conceito, popularizado por injetores experts como Maurício de Maio e corroborado por dissecções de Cotofana, sugere que devemos tratar a causa (perda de sustentação lateral) antes da consequência (sulcos na região medial).
Lifting vs. Projeção
Projeção: Ocorre quando volumizamos a região anterior (maçã do rosto). Se feita em excesso ou sem suporte lateral, empurra o tecido para frente, criando volume mas não necessariamente rejuvenescimento.
Lifting: Ocorre quando estruturamos a região lateral (têmpora, arco zigomático posterior, ângulo de mandíbula). Ao ancorar o tecido na “face fixa”, promovemos um efeito de tração que reposiciona a face móvel.
O erro comum é atacar diretamente o sulco nasolabial ou a olheira. Tratar essas áreas sem antes verificar a sustentação lateral é como “tapar um buraco” em uma estrada que está desmoronando: gasta-se muito material (preenchedor) e o resultado é pesado e pouco natural.
Técnica Híbrida: Firm and Lift
Uma aplicação prática desse conceito é a técnica Firm and Lift (Galderma), que combina bioestimuladores de colágeno e ácido hialurônico com raciocínio anatômico:
Região Lateral (Foco em Lifting): Utiliza-se bioestimuladores de colágeno em toda a região de contorno e sustentação (atrás da linha dos ligamentos). O objetivo é criar uma malha de colágeno que firme a pele e promova o efeito lift sem excesso de volumização.
Região Medial (Foco em Refinamento): O uso de preenchedores de ácido hialurônico fica restrito a pontos específicos de perda de volume profundo que o bioestimulador não alcança, como a fossa piriforme, a região de marionete e a olheira profunda.
Conclusão
O planejamento de um preenchimento facial deve seguir a lógica da construção civil: primeiro a fundação, depois o acabamento. Começar pela região lateral (Lateral First) permite reposicionar os tecidos, exigindo quantidades menores de produto para corrigir as deformidades anteriores.
Diagnosticar corretamente se o paciente precisa de projeção (volume) ou lifting (tração) é o que separa um resultado natural e elegante de uma face estigmatizada.













