A recente repercussão de uma reportagem do programa Fantástico, abordando a reversão da harmonização facial do cantor Lucas Lucco, reacendeu o debate sobre quem pode ou não realizar procedimentos estéticos: médicos ou dentistas?
A reportagem, que dedicou muito mais tempo de fala à classe médica do que à odontológica, levantou a questão da “desarmonização”. No entanto, o caso do cantor revela uma das maiores vantagens do ácido hialurônico: a reversibilidade. Se o paciente não gostou ou se arrependeu — mesmo que um ano depois, como foi o caso — é possível utilizar a hialuronidase para dissolver o produto. Embora a enzima exija cautela devido ao risco de angioedema (inchaço), ela é uma ferramenta segura nas mãos de quem estuda.
O ponto central da discussão, contudo, é a defesa da classe odontológica. Os especialistas criticam o argumento clichê de que “o dentista estuda anatomia da cabeça por anos na faculdade”. Na prática, a anatomia estética específica é aprendida em pós-graduações sérias, e não na graduação ou em cursos de fim de semana de dois dias — estes sim, o verdadeiro perigo, independentemente da profissão.
O argumento definitivo para encerrar a disputa de “reserva de mercado” vem da própria definição da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Conforme destacado por Velasco e Azer, a função do dermatologista é diagnosticar e tratar doenças da pele, cabelos e mucosas. A harmonização facial, por sua vez, não trata pele; ela trata estrutura, volume e musculatura. Portanto, a estética facial nunca foi exclusividade da medicina; foi uma área que a dermatologia abraçou, mas que pertence a qualquer profissional de saúde devidamente capacitado para devolver estrutura à face.
No fim, a polêmica sobre Lucas Lucco — que talvez tenha removido o produto mais pela pressão das redes sociais e comparações com personagens como “Lula Molusco” do que por erro técnico — serve de alerta. O problema não é se o profissional é médico ou dentista (a literatura mostra intercorrências em ambas as classes), mas sim a qualidade da formação e o bom senso na indicação do tratamento.












