Horácio: Vamos atrás. Aonde é que vai dar tudo isso?
Marcelo: Há algo de podre no reino da Dinamarca.
Horácio: O céu há de cuidar disso.
Marcelo: Não, vamos segui-lo.
Depois da presepada daquele processo que perdemos referente à especialidade de Harmonização Orofacial para o Conselho Federal de Medicina, com uma atuação ridícula do Conselho Federal de Odontologia e seu auto proclamado “departamento juridico” (e que já desenvolvemos bem em dois outros artigos aqui e aqui) me peguei pensando sobre o quão estragado está nosso conselho de classe que esse trecho da peça Hamlet, de Shakespeare, me veio à cabeça.
No contexto da peça, isso mostrava um clima de suspeita, corrupção moral e instabilidade política que acometera a Dinamarca depois da morte do rei. Em certa proporção, é o que percebo acontecer no CFO…
Já entro no contexto completo, mas cabe lembrar que tudo, tudo, tudinho que vou relatar a seguir são de informações publicas, e longe de mim querer imputar qualquer culpa nos personagens envolvidos. Tudo que coloco a seguir está sendo investigado por autoridades competentes. Se tudo correr bem, ao final saberemos a realidade, mas por enquanto vamos dizer que estamos lidando com alguns fatos comprovados e muitas suposições.
Dito isso, a interpretação dos fatos fica por sua conta, leitor.
O Conselho Federal de Odontologia não é um mal necessário.
Pode parecer que, com tudo que escrevo e já escrevi sobre o CFO me coloca avesso às regulamentações da odontologia, mas isso não pode estar mais distante da realidade.
O Conselho Federal e suas seções estaduais são essenciais pra tentar manter nos eixos o caos que se instaurou em nossa profissão. Conseguem manter as coisas em ordem? Não. Mas são essenciais para TENTAR manter as coisas em ordem e dar alguma seriedade para profissão.
Tá certo que ele mesmo não se ajuda, tendo instaurado o que chamei de Terraplanismo Odontológico ao regulamentar o uso dos Florais de Bach, ou melhor, "Terapias florais" na odontologia e a própria Odontologia Integrativa, mas isso não é o caso agora.
Enfim, vamos aos fatos: nossos representantes não foram eleitos, foram instaurados na autarquia por força judicial. Não sabia disso? Pois então: toda a diretotia eleita em 2024 foi afastada em 2025, um ano depois, por uma série de ações, para ser politico, questionáveis.
A diretoria é investigada por supostamente ter desviado dezenas de milhões de reais dos cofres da autarquia para um fundo de investimentos privado sem autorização de funcionamento. Pra ser mais preciso, teriam sido 40 milhões de reais desviados, que vieram das anuidades que eu e todos os dentistas pagam para continuar a ser dentista.
Isso fez com que a autarquia passasse por uma devassa do Tribunal de Contas da União (TCU), da Polícia Federal e culminou no afastamento judicial de quase toda a sua diretoria no final de 2025.
E pra entender melhor o rolo, temos que entender como um grupo politico se perpetuou no poder por mais de uma década, saindo do domínio dos conselhos regionais (CROs) para o topo do conselho federal. A seguir, apresentamos um dossiê detalhado, isento e baseado em fatos documentados, despachos judiciais e relatórios de órgãos de controle, mas ordenados em uma sequencia lógica das coisas para que fique mais fácil a compreensão do todo:
Tá tudo dominado!
A trajetória da atual crise não começou com o calote financeiro, mas sim com a lenta e contínua construção de uma hegemonia política. Antes de chegarem a Brasília, os caciques do grupo construíram sua base política dominando os conselhos estaduais por anos a fio:
Claudio Yukio Miyake (Presidente afastado em 2025): Presidiu o CRO de São Paulo (CRO-SP) por três mandatos seguidos (2013-2018).
Roberto de Sousa Pires (Secretário-Geral afastado em 2025): Comandou o CRO do Pará (CRO-PA) por oito anos ininterruptos (2010-2018).
Anderson Lessa Siqueira (Conselheiro afastado em 2025): Foi presidente do CRO de Sergipe (CRO-SE) por quatro mandatos seguidos (quase uma década).
Raimundo Nazareno de Souza Ávila (Vice-Presidente afastado em 2025): Presidiu o CRO do Amapá (CRO-AP) entre 2014 e 2018.
Gláucio de Morais e Samir Najjar (Conselheiros afastados em 2025): Lideraram as gestões do Rio Grande do Norte (CRO-RN) e do Distrito Federal (CRO-DF).
Daí em 2018, chegaram ao CFO. Este grupo se une em uma chapa nacional sob a presidência de Juliano do Vale e assume o controle financeiro e administrativo do Conselho Federal de Odontologia:
Claudio Miyake assume como Secretário-Geral (o cargo de operações mais forte depois do presidente).
Ataíde Mendes Aires assume como Conselheiro Efetivo e Presidente da Comissão de Tomada de Contas (órgão que deveria fiscalizar os gastos).
Samir Najjar vira Conselheiro Efetivo, enquanto Roberto Pires, Raimundo Nazareno e Élio Silva Lucas entram como Suplentes.
Tamo moderno, véi.
Até 2018, o Conselho Federal de Odontologia era visto por grande parte dos profissionais apenas como um órgão “cartorial”, bastante empoeirado cuja principal função parecia ser enviar o boleto da anuidade e ameaçar quem ousasse fazer propaganda.
Aí essa nova diretoria eleita em 2018 resolveu abrir a janela, bater o pó que tinha acumulado nos tapetes, trocar a vitrola por uma caixa JBL paraguaia com bluetooth e parece que começou uma campanha de modernização da especialidade: Eles entregaram à classe exatamente o “pão e circo” digital que ela implorava: a liberação das famosas fotos de “antes e depois” e a concessão da verdadeira mina de ouro chamada Harmonização Orofacial (HOF).
Ora ora, tinhamos modernizado a odontologia como as gestões anteriores nunca fizeram! Pro bem e pro mal, bem dizer, porque liberar antes e depois foi e é uma furada judicial, e vimos como foi mal planejado a resolução da Harmonização Orofacial.
E, com tanta inovação, quem se importaria com a gestão interna da autarquia, não é mesmo?
Agora cabe uma informação: os dentistas não elegem ninguém do CFO, esta eleição é indireta por meio de um colégio eleitoral restrito formado apenas pelos 27 presidentes dos estados. Com a base de profissionais completamente em transe e se esbaldando com as novas resoluções, qualquer possibilidade de articulação de uma frente de oposição nos conselhos regionais foi praticamente asfixiada no berço.
Nenhum líder estadual seria politicamente ingênuo a ponto de se voltar contra os gestores que haviam acabado de multiplicar o faturamento das clínicas pelo Brasil, você bem sabe como a Harmonização Orofacial funciona.
O resultado prático desse populismo foi a garantia de um silêncio obsequioso e o carimbo para reeleições em chapa única. Foram 24 delegados votando sim, outros 3 votos foram nulos/brancos. Não houve nenhuma chapa de oposição inscrita. Sem concorrentes, sem debates e com o aval de uma classe deslumbrada com as redes sociais.
Voltando à nossa timeline:
Como o Dinheiro Desapareceu?
As transferências milionárias que deram origem ao rombo financeiro no CFO ocorreram, na sua grande maioria, no ano de 2021. Mais especificamente, em sete parcelas realizadas entre os meses de julho e outubro de 2021.
Os repasses para a empresa Solstic Capital totalizaram cerca de R$ 40 milhões.
Neste exato momento (julho a outubro de 2021), o CFO estava nos meses finais da gestão do triênio 2018-2021. A Diretoria Executiva que estava “com a caneta na mão”, responsável por assinar e liberar essas transferências de fundos, era composta por:
Presidente: Juliano do Vale
Como ordenador de despesas máximo da autarquia, a saída dos R$ 40 milhões precisou de seu aval. (Ele renunciou misteriosamente em dezembro de 2024, dias antes do escândalo estourar internamente. No mínimo suspeito, renunciou poucos dias antes do mandato terminar).Secretário-Geral: Claudio Yukio Miyake
Segundo as investigações do TCU e da Polícia Federal, Miyake teria sido o principal articulador e operador financeiro do esquema. Teria sido ele quem trouxe o contato do empresário da Solstic Capital (Flávio Batel) para dentro do CFO, por intermédio de um sócio seu, Carlos Alberto Kubota.Tesoureiro: Luiz Evaristo Volpato
Era o responsável direto por gerenciar o caixa, de onde saíram as sete transferências bancárias. (Assim como o presidente, ele também renunciou ao mandato em 2024 possivelmente para fugir das consequências).
Além da Diretoria Executiva, os investimentos precisavam ter a prestação de contas aprovada internamente. Quem presidia a Comissão de Tomada de Contas do CFO em 2021 era o conselheiro Ataíde Mendes Aires, com apoio do membro Gláucio de Morais e Silva — ambos afastados pela Justiça em 2025 justamente por terem chancelado e dado ares de legalidade à operação.
O suposto resumo da dinâmica: Miyake articulou o negócio; Juliano do Vale e Volpato assinaram a liberação dos R$ 40 milhões entre julho e outubro de 2021; e a comissão interna de Ataíde e Gláucio aprovou as contas, permitindo que a fraude passasse despercebida até o calote final se concretizar.
Mas que dinheiro é esse? Você deve se perguntar. Explico:
O valor arrecadado anualmente com as anuidades pagas por mais de 400 mil cirurgiões-dentistas e milhares de clínicas possui natureza de tributo e depois de quitado o boleto, o valor ser rigorosamente dinheiro público. A legislação define que essa arrecadação seja fatiada: 75% do do valor fica para financiar as operações dos Conselhos Regionais (CROs), enquanto os 25% restantes são repassados para a conta do Conselho Federal (CFO), em Brasília. Considerando a imensa quantidade de profissionais inscritos no país, essa fatia de 25% forma uma receita anual na casa das dezenas de milhões de reais.
Por lei, o dinheiro deve ser aplicado essencialmente na fiscalização contra falsos dentistas, no andamento de processos éticos, na manutenção da máquina administrativa (pagamento de servidores, TI e infraestrutura) e supostamente na representação política no Congresso Nacional (que inexiste, sabemos bem), etc…
É dessa mesma fonte que sai o custeio da própria cúpula do conselho, bancando as desejáveis verbas indenizatórias — como diárias de hotéis, passagens aéreas e jetons (cachês por reunião) — utilizadas pela diretoria executiva e pelos conselheiros federais. (Só estes valores mereceriam um outro artigo neste site, nem entro no merito agora…)
Então poderiamos dizer, grosseiramente, que o CFO ganha (bem) mais do que gasta, gerando um superávit milionário, e esse dinheiro excedente deve ser guardado para uma emergência. Pra não desvalorizar, os gestores podem investir o montante excedente em um investimento de baixo risco e com 100% de transparência, entendendo que os dados da operação fique sujeita à auditoria de qualquer cidadão e do Tribunal de Contas da União (TCU).
Mas não foi isso que aconteceu, concorda?
Teve outro historico anterior…
No distante ano de 2016, o mesmo CFO foi o epicentro da "Operação Tiradentes", deflagrada pela Polícia Federal e pelo TCU, que culminou na prisão do então presidente Ailton Morilhas sob a acusação de ocultar gastos, desviar recursos e bancar uma suposta farra de diárias e luxos pessoais com o dinheiro das anuidades. Embora aquela crise tenha forçado o Conselho a criar seu Portal da Transparência sob ameaça, a memória curta da categoria e o sistema eleitoral blindado aparentemente permitiu que a história se repetisse com cores muito parecidas…
E a turminha consegue voltar!
Resumo até aqui: A diretoria teria retirado dezenas de milhões de reais dos cofres do CFO entre julho e outubro de 2021, antes guardados em bancos oficiais, e teria aplicado, sem licitação, na Solstic Capital, uma empresa privada sem autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou Banco Central, com promessas irreais de lucros (caracterizando esquema de pirâmide). Em dezembro de 2021, o calote da Solstic se concretiza (um rombo de mais de R$ 40 milhões). O dono da empresa comete suicídio (não, não é piada…) e sabendo que a bomba explodiria a qualquer momento, o então presidente Juliano do Vale e o tesoureiro renunciam a seus mandatos dois dias antes da posse da nova gestão.
Em 8 de dezembro de 2024: A nova chapa (chapa única, DE NOVO!!!) toma posse para o triênio 2024-2027. É o mesmo grupo no poder desde 2018, apenas trocando de cadeiras: Miyake herda a coroa e vira Presidente; Nazareno (Vice), Pires (Secretário-Geral), Élio (Tesoureiro), Anderson, Ataíde, Gláucio e Samir assumem como Efetivos.
Em maio de 2025: Ex-servidores do alto escalão do CFO (como o superintendente executivo e o procurador) denunciam o rombo milionário. O então presidente Claudio Miyake teria tendado encobrir o caso e ordena a adulteração de ofícios que iriam para o Ministério Público Federal (solicitando a retirada de palavras como “golpe” e “laranja”). Mas os servidores teriam recusado a ordem, sendo sumariamente demitidos por Miyake e vazam a história para a imprensa.
PF e TCU iniciam investigações…
Em setembro de 2025: Jairo Santos Oliveira (conselheiro efetivo) entra com uma Ação Popular na Justiça Federal contra Miyake e o restante da diretoria. Com isso, em 25 de novembro de 2025, para impedir a destruição de provas e intimidação de testemunhas, a 21ª Vara Federal Cível do DF assina uma liminar afastando cautelarmente todos os 8 cabeças do grupo (Miyake, Nazareno, Pires, Élio, Ataíde, Anderson, Gláucio e Samir). Pela primeira vez em mais de 10 anos, eles ficam fora do poder.
Ufa. Mas não: para evitar o apagão da autarquia, a Justiça ratifica a posse oficial de Jairo Santos Oliveira como Presidente do CFO. Ele assumiu por ser o único conselheiro efetivo remanescente não envolvido na operação direta da fraude e por ser o mais idoso (obedecendo ao critério regimental).
O Plot Twist
Uma boa história deve ter sempre um plot twist, e esse foi curioso… em 15 de julho de 2026 todo este escandalo faz com que o TCU, Tribunal de Contas da União, crie um Grupo de Trabalho (Acórdão nº 1.899/2026) para redigir a nova “Lei Geral dos Conselhos Profissionais”, visando evitar que outras autarquias façam o mesmo no Brasil.
De um limão, uma limonada, correto?
Além disso, o mesmo TCU exige a devolução de R$ 31 milhões e aplica responsabilidade solidária sobre os bens pessoais dos ex-gestores, incluindo Claudio Miyake.
E mais! O TCU também intima o próprio presidente atual, Jairo Santos Oliveira. O tribunal identificou que ele, como conselheiro na gestão 2021-2024, votou a favor das prestações de contas que permitiram os investimentos irregulares na Solstic.
Pelo jeito não sobrou fruta boa na fruteira. Mas cabem dúvidas, tenho que ser sincero. Tentando afastar sua imagem do antigo grupo, Jairo assina a Decisão CFO-SEC-40, reprovando oficialmente as contas da antiga diretoria apontando indícios de irregularidades e a falta de licitação…
Dá pra perceber que o CFO está operando de maneira precária sob liminar judicial com Jairo na presidência. Novas eleições continuam travadas na Justiça devido ao caos institucional provocado pelas investigações em curso, mas não posso deixar de pensar que o atual presidente em exercício também está jogando pra plateia:
Pão e circo 2.0?
Tenho a impressão que existe em algum lugar um manual pra isso. O atual presidente não tem legitimidade real, e precisa de apoio institucional, correto?
Parece curioso porque bem nessa fase de caos, o CFO ligou sua metralhadora de resoluções com alto apelo comercial O maior exemplo dessa manobra foi a edição da Resolução CFO nº 286/2026, que criou a Cirurgia Estética Orofacial (CEOF) como nova especialidade. Veja, já discuti essa resolução aqui, e foi aparentemente bem elaborada, mas o timing é que pega.
Logo depois, no ritmo de aventura, a gestão publicou a Nota Técnica nº 002/2026, validando a febre da “otomodelação” com fios, e coroou a estratégia com a Resolução CFO nº 295/2026, que liberou a administração de fármacos endovenosos para sedação profunda no próprio consultório odontológico, que também discuti aqui.
Será que não estamos vendo uma criação de uma cortina de fumaça perfeita, sustentada pela figura de um “inimigo externo”. Veja bem, esta é minha leitura, não estou inferindo culpa ou intenção, mas me parece bem óbvio que liberar cirurgias faciais e sedação venosa provocaria a fúria imediata do Conselho Federal de Medicina (CFM) e de sociedades médicas. Se somar então o processo perdido da Harmonização Orofacial, tudo isso fez o assunto mais importante, toda essa suposta fraude que contei, sair completamente de foco.
Na política, nada une mais um grupo do que o ódio a um adversário em comum. Enquanto a maioria dos cirurgiões-dentistas está distraída debatendo carga horária de cursos de sedação, lotando turmas de especialização em CEOF, brigando pela Harmonização Orofacial, celebrando vitórias e lamentando derrotas contra a Medicina nas redes sociais, nada de fala ou se comenta rombo dos cofres da autarquia.
Ninguém questiona o sumiço dos R$ 40 milhões na pirâmide da Solstic Capital, as cobranças do TCU ou o fato de que o atual presidente também levantou a mão no passado para aprovar aquelas contas.
Pelo jeito, enquanto o Conselho garantir expansão de mercado e liberdade para faturar, a classe não fará perguntas desconfortáveis sobre quem tem as chaves do cofre.
TOC…TOC…TOC… É a Polícia Federal.
Como se a trama não pudesse ficar mais espinhosa, a realidade mais uma vez superou a ficção. Nesta exata quinta-feira, 17 de setembro de 2026, a bomba relógio criminal finalmente estourou. A Polícia Federal deflagrou a Operação Apolônia, mirando diretamente o suposto esquema de desvio e lavagem de dinheiro da antiga gestão do CFO.
Até Santa Apolônia ficaria de queixo caido com os números: a Justiça Federal determinou o bloqueio de até R$ 57 milhões em contas e bens ligados às pessoas físicas e jurídicas investigadas — incluindo os ex-dirigentes da autarquia e empresários. Durante os mandados de busca e apreensão, os agentes federais encontraram cerca de R$ 300 mil em dinheiro vivo e apreenderam veículos.
E como reagiu o atual presidente, Jairo Santos Oliveira? Exatamente como prevíamos no roteiro do nosso “plot twist”. Minutos após a operação ganhar os noticiários, as redes sociais oficiais do CFO publicaram uma nota oficial com um claro tom de defesa pessoal.
O texto da autarquia faz questão de sublinhar que a gestão investigada “já havia sido afastada” e foca todos os holofotes no fato de que o atual presidente está colaborando com a PF, o TCU e o MPF.
Me parece a consolidação de sua estratégia política: surfar na onda das prisões e apreensões para se firmar como o “xerife da transparência” perante os dentistas, torcendo silenciosamente para que, no meio do aplauso pelas apreensões de dinheiro vivo e bloqueio de R$ 57 milhões, a classe odontológica não se lembre de que ele mesmo também estava no plenário quando esse desastre começou.
A Dinamarca, de fato, continua apodrecendo. E nós, como Horácio, continuaremos a seguir o rastro.
E é por isso que você tem que participar de nossa petição:
Se você é cirurgião-dentista e não aceita perder a Harmonização Orofacial por incompetência política e jurídica do nosso Conselho, junte-se a nós!
Assine a petição exigindo novas eleições no CFO e a contratação de uma equipe jurídica de peso. O futuro do seu consultório está em jogo!
As ligações perigosas e o loteamento da máquina pública
O caso envolvendo a Solstic Capital pode não ter sido um evento isolado na autarquia. Reportagens investigativas do portal Metrópoles levantaram indícios de que a gestão de Claudio Miyake teria utilizado a estrutura do CFO para abrigar pessoas ligadas a operadores do mercado financeiro.
Segundo as denúncias veiculadas, o Conselho teria contratado, em bloco, três pessoas por indicação do empresário Marcos Cleto — que, na ocasião, já era alvo de investigações por suspeita de lavagem de dinheiro. Com o suposto aval direto da presidência, a autarquia teria nomeado um parente direto do empresário para o cargo comissionado de “Assessor CCIII”, com salários custeados pelo dinheiro das anuidades dos cirurgiões-dentistas.
Para a Justiça Federal, esses indícios de que o Conselho estaria operando como um “cabide de empregos” reforçaram a tese de possível violação da impessoalidade e de suposto tráfico de influência, argumentos que ajudaram a embasar o afastamento cautelar da cúpula.
O histórico em Mogi das Cruzes e os sinais de alerta
Para os observadores do cenário político, os questionamentos sobre a lisura em contratos públicos não seriam exatamente uma novidade na trajetória do ex-presidente. Antes de chegar ao comando do CFO, Claudio Miyake já havia enfrentado turbulências em seu berço político: a cidade de Mogi das Cruzes (SP).
Durante sua passagem como Secretário Municipal de Saúde na década de 2010, ele chegou a figurar como réu em uma Ação Civil Pública por suposta Improbidade Administrativa e possível Prejuízo ao Erário movida pelo Ministério Público (MPSP). O inquérito visava apurar contratos apontados como suspeitos envolvendo o repasse de verbas a cooperativas médicas terceirizadas. Somado a isso, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) chegou a apontar como irregulares diversos termos aditivos assinados durante sua gestão na prefeitura.
Esse retrospecto no município sugere uma reflexão importante sobre o sistema representativo da classe: um gestor público que já respondia a questionamentos sérios sobre terceirizações e contratos em órgãos de controle locais acabou alçado ao comando de uma autarquia federal sem sofrer grande resistência. Lá, de acordo com as investigações atuais do TCU, ele teria encontrado o ambiente propício para, supostamente, reproduzir um modelo de gestão semelhante, culminando no episódio em que cerca de R$ 40 milhões da Odontologia teriam sido transferidos de forma irregular.


